Quentin Tarantino e a natureza humana

Impossível não comentar… Na verdade, o “post da semana” já estava escrito, mas não dá para não falar de “Bastardos Inglórios” o mais novíssimo filme [clássico] de Tarantino. Digo “clássico” porque certamente ele será muito mais lembrado que “Pulp Fiction”.  Suposições à parte…  Há muito, mas muuuuuuuuuito tempo mesmo que eu não saía de uma sessão de cinema com a sensação de “completude” e “satisfação plena”.  A obra é simplesmente genial!!!!!

inglouriousbasterds

A nível de esclarecimento, minha paixão por cinema é a mais leiga possível, então, qualquer crítica partida deste blog é só um olhar, digamos… [bruto]. Isto não é necessariamente negativo, uma vez que possa vir a ser mais próximo do “cinespectador”. Li algumas críticas ao filme e fiquei impressionada com os olhares mais técnicos sobre direção, iluminação, estilo de filmagem e todos esses blá blá blás que o consagram como “O filme”. Infelizmente não tenho condições técnicas de fazer estas observações, mas tenho certeza que qualquer leigo como eu que assista ao filme sairá da sala de cinema com a sensação de que cada cena foi filmada para torná-lo inesquecível. Considero esta a principal característica para transformar um filme num clássico: poderíamos separar cada cena individualmente e descontextualiza-las que elas seriam, ainda assim, brilhantes.

Direção, roteiro, atuação, cenas, diálogos, efeitos, trilha sonora… [esqueci alguma coisa?] Tarantino pensou em tudo sem desvincular-se de seus traços marcantes. A principio achei que a abordagem era muito caricatural, mas se tratando de Tarantino, é o que se pode esperar; portanto, não se trata de um defeito, mas sim uma opção. Violento, divertido, vingativo e inteligente, sem o politicamente correto, sem mocinhos, sem heróis.  No sentido mais hobbesiano do termo, Tarantino transforma os piores defeitos humanos em virtudes apreciáveis e revela o que há de mais humano nos momentos em que honra, moral e ética são facilmente descartadas por uma coisa muito mais importante: sobrevivência (ainda que seja a sobrevivência do prestígio, dos privilégios, dos desejos). Apesar disso, ser humano não nos torna vergonhoso em Tarantino, pois ele naturaliza o mais bárbaro e trágico de nós, mas não o faz sob um aspecto negativo e sim num aspecto cômico e sarcástico. O humano em Tarantino é bruto e o sentimento é secundário; ele preza muito mais o jogo, a sagacidade. As fraquezas em Tarantino são fortalezas e as virtudes são totalmente descartáveis. Esta inversão de valores é a total fuga do heroísmo hollywoodiano e do romantismo; talvez seja a total fuga do ideal de humanidade, mas será a total fuga do que é, de fato, a natureza humana? Talvez não, uma vez que a mais bárbara e caricata das ficções não nos incomoda, ao contrário, nos satisfaz… Em que outras condições eu veria uma cabeça sendo esmagada por um taco de basebol e acharia graça?

Talvez nossa mente tenha um bom dispositivo para distinguir perfeitamente a realidade da ficção, mas ainda assim as cenas expostas são extremismos de exemplos retirados do nosso cotidiano. Deste modo, de maneira brilhante, Tarantino brinca com o cinespectador, pois ainda que diante da mais completa ficção, expõe-nos à improvável identificação com o que há de mais grotesco. Grande parte das críticas destina-se a esse fascínio do diretor em desmistificar a natureza humana, já que temos dificuldade em aceitar as duas temáticas mais marcantes de sua obra (violência e vingança) como partes essenciais desta natureza. Com um roteiro que levou quase 10 anos para ficar pronto e ser desenvolvido, “Bastados Inglórios”, ao “recontar” a história do nazismo de modo bem peculiar – revelando os judeus não como vítimas de crueldade e dignos de pena, mas também algozes, vingativos e sedentos por sangue e justiça – nos causa certa estranheza. Confesso que é a primeira vez que vejo um filme sobre II Guerra e consigo visualizar judeus e nazistas como indivíduos próximos em algum aspecto, ainda que este aspecto seja o lado mais negativo e obscuro do homem… Isto é que torna as personagens de Tarantino tão peculiares.  Elas, acima de tudo, acima das crenças e interesses têm uma natureza em comum e esta não é boazinha… Assim, cada uma delas mereceria um filme à parte. [ou, pelo menos, mereceria um post à parte]. Desta vez, entretanto, nosso querido diretor exagerou tanto na qualidade de suas personagens, quanto no roll de estrelas num só filme; todos travestidos em personagens muito marcantes, maliciosos e com uma dose de crueldade.

Ainda que o faça por meio de ficção, ao revelar o lado mais obscuro das capacidades humanas em detrimento de sentimentos mais “sãos”, Tarantino é taxado pelos críticos como superficial e infantil. Para os que condenam suas obras em nome de algo que não sei o que é, a resposta de Tarantino é grossa e direta: suas obras “não são para todos, e quem não quiser ver que não vá”.  Eu, entretanto, acho que são sim para todos e quem não for ver, certamente pmv5bmti1mjiwmdeynv5bml5banbnxkftztcwodi0otk2mg-_v1-_sx600_sy400_erderá a grande chance de assistir ao filme mais completo do ano.  Se nada disso é suficiente para te fazer levantar da cadeira e ir ao cinema mais próximo, a atuação de Brad Pitt e, sobretudo, da grande revelação do ano que roubou a cena: Christoph Waltz [com esta atuação, o austríaco levou o prêmio de melhor ator no festival de Cannes e concorrerá ao Oscar 2010 - que certamente levará!] interpretando Hans Landa, um nazista muito malvado e muito hilário,  são motivos mais que suficientes…

Sem efeito [borboleta]

Sempre acreditei que escolhas pontuais tivessem a capacidade de modificar completamente o rumo das nossas vidas como se um ato despretensioso fosse decisivo para o futuro. Com os olhos nos erros do passado acreditei que se pudesse voltar atrás em determinada cena, tudo poderia ser diferente…  Será?

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No instigante filme “efeito borboleta” o lindíssimo Ashton Kutcher interpreta um jovem perturbado que tem (ou delira ter) o poder de voltar no tempo e transformar seu próprio destino e das pessoas a sua volta com uma simples mudanças de atitude. Quem não gostaria de poder voltar, nem que seja apenas uma vez, ao passado e “arrumar” as coisas? Mesmo se, no final das contas, nada saísse da forma que imaginamos, não seria bom ter uma chance para recomeçar? Convencida da minha incapacidade de voltar ao tempo, por muitas vezes o meu maior desejo foi somente que ele passasse bem depressa até que um momento em que meus erros simplesmente não me machucariam tanto…

Há cerca de três meses atrás, numa destas tentativas frustradas de regresso ou aceleração no tempo, tive a inútil idéia de sortear uma data em minha agenda e escrever a seguinte frase: “O que acontecerá neste dia?”. Não sei o que pretendia naquele exato momento, mas esperava me surpreender… O dia sorteado chegou, entretanto, nada de extraordinário aconteceu. Mais curioso que isto foi que aquele dia sorteado não só não foi extraordinário, como também foi o mais ordinário dos dias; tão ordinário que me fez simplesmente esquecer a “data-chave”.

Frustrante? Não encaro assim… Até a rotina mais ordinária tem lá suas virtudes… Dá a feliz e morna sensação de continuidade. E continuidade às vezes é mais atraente que ruptura. Ainda assim, as coisas em seu ritmo menos frenético, mas nem por isso pouco surpreendente, estão sempre se transformando de modo a me fazer pensar que o efeito borboleta é mesmo um efeito inútil. Ele é inútil pelo simples fato de que seria muito cruel delegar a apenas um dia, um instante ou um ato todos os erros e acertos de nossas vidas…

Hollywood contra-ataca

O cinema cult se propõe a ser uma alternativa a Hollywood, mas será que não o complementa?

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Nesta segunda-feira foi dado início ao tão esperado V Seminário Internacional de Cinema e Áudio visual. Como estamos no ano da França no Brasil, a temática não poderia ser ninguém menos que o maior nome do cinema francês: Jean L. Godard um dos grandes precursores da cinefilia (nouvelle vague) e revolucionário do cinema autoral. A mim, participar deste evento é um desafio posto que dos poucos filmes do Godard que vi, nenhum me agradara lá muito… Se houve um pouco de radicalismo na minha repulsa inicial, através desse contato mais intimo que o seminário está proporcionando, percebo que há muita coisa a ser explorada na loucura dos seus filmes.

Fato é que, quando me apresentaram-no como “o cara”, me policiei para gostar apenas se considerasse bom e não por sua qualidade a priori. Resultado: Não gostei (o que é, na verdade, um caminho natural já que seus filmes são enfadonhos e pouco surpreendentes). Talvez eu tenha esperado demais, mas o fato é que até hoje não consegui me convencer das razões para tanta fama. Quem sabe até sábado [o ultimo dia do evento] eu não mude de idéia? Ao verdadeiro cult, é impagável admitir que alguém não consiga gostar dele, ou… Talvez, ao contrário, seja interessante que não se goste de Godard. Gostar significa fazer parte de um grupo selecto (cult) e de gosto apurado. Assim, quanto menos pessoas gostam, mais cult ele parece. À medida que o que era cult se populariza, é descartado e substituído por uma novidade mais… digamos… “nova”. O que não se percebe é que este caráter de descartabilidade do cult é tão passivo ao mercado quanto a cultura de massa. No final das contas o movimento [sempre] vanguardista do cult é apenas uma tendência complementar a esta cultura de massa à qual contesta.

Do pouco que conheço deste diretor, sei que Godard esteve na vanguarda de um militantismo cultural contra a produção do cinema em escala industrial, mas caiu algumas vezes em contradição com sua própria militância quando passou a adquirir relativa popularidade e se viu obrigado a cumprir prazos e produzir filmes em série chegando ao marco de 6 filmes num só ano.  Histoire(s) du Cinemá (considerada por muitos como a grande obra do século XX), o filme escolhido para a abertura do evento, representa, em linhas gerais, esta crítica à industrialização do cinema voltada para o lucro que tem sua maior expressão com Hollywood. Em meio a um bombardeio de imagens de filmes antigos remixadas e por demais confusas, Godard transmite suas angustias em relação à indústria do entretenimento, do mito, do glamour e do sonho que desvirtuam o indivíduo da realidade. Como não poderia ser diferente, concordo, em parte, com esta crítica, mas algumas coisas devem ser levadas em conta.

O cinema não nasceu com Hollywood, nem o “cinema mito”. No entanto, é inegável que a paixão pelo cinema nasceu sim com Hollywood e suas mega-produções adaptadas a todo o tipo de público e gosto. Hollywood despertou e difundiu o cinema e suas estruturas grandiosas permitiram-no ir das grandes capitais aos pequenos vilarejos, das salas de cinema à internet, da internet aos ambulantes. A indústria do cinema foi responsável até pela massificação de ingressos (apesar de ainda pouco acessíveis), de salas de cinema, de aparelhos de DVD. E não é exagero dizer que o próprio cinema alternativo e sua boa adesão só existem graças a Hollywood, na medida em que surge para contestar a produção industrializada em detrimento da autoral. Os grandes festivais lotados de gente só existem porque antes de se conhecer o cinema cult, aprendemos a amar o cinema de uma forma mais genérica e para tal, tivemos acesso a ele graças a sua massificação.

Sem Hollywood (ou uma estrutura semelhante) não seria possível a expansão desta paixão mundial e pouco me admiraria se o cinema permanecesse francês ou, no máximo, europeu. O cinema agora é globalizado e isto não significa que não haja uma hegemonia hollywoodiana. Ela é inegável e o intercâmbio do cinema fora desta esfera é, sem dúvidas, escasso. Assim, concordo com a crítica a esta estrutura que deve sim ser superada, mas sem esquecer sua contribuição ou tentar destruí-la. Quebrar o monopólio, sim; mudar as regras e inovar no cinema, sim (e nisto Godard é pioneiro). Entretanto, ao tentar readaptar os interesses individuais para um cinema menos “show” e mais “político” em que o peso maior deve ser dado à realidade e menos ao mito e ao sonho, Godard está lutando contra o inimigo errado por uma razão muito simples: as pessoas gostam de Hollywood porque atende a todo tipo de público. Não é o público que se adapta a Hollywood, é Hollywood que se adapta ao público.  Ao produzir um cinema experimental, Godard contribui imensamente à história do cinema, mas não pode ambicionar uma mudança de cultura que acredita ter nascido com Hollywood, pois ela  não nasceu lá.

A consequência deste movimento alternativo a Hollywood foi uma clara distinção entre “cinema show” e “cinema cult”.   Mas no fundo, a verdade é que foi criado mais um gênero a preencher as prateleiras das locadoras. Longe de competir com Hollywood, o cinema cult complementa-o e, aos poucos também é incorporado pela grande indústria.  É inútil, Godard! É inútil lutar contra o “cinema show” pois a vida é real demais e precisamos às vezes do espetáculo!

Se algum dia o cinema perder o sonho e o glamour, podem ter certeza que perderá também uma admiradora a preencher as cadeiras da sala escura sonhando e engordando de tanto comer pipoca…

Seria cômico se não fosse trágico…

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Diversas são as barbaridades que acontecem em nosso cotidiano. Com a passividade inerente às nossas entranhas, a única forma de extravasar é dando umas boas gargalhadas…

Hoje foi um daqueles dias que a gente tira pra resolver pepinos. Como todo dia 07 é o tão esperado “dia do pagamento” (e de fazer pagamentos) decidi também passar no banco para saber por que não posso mais fazer compras no cartão de crédito.  Na hora bem que me perguntei: por que eu estou fazendo tanta questão de ganhar mais dívidas? Mas o espírito (de porco) consumista falou mais alto. O banco é o amigo diabo: ganho uma bolsa de 300 contos, eles me dão um limite de 200 no cheque especial e um crédito de 600 no cartão. Fazendo os cálculos, +300 -200 -600 = 500 devedor + juros + transporte + alimentação + material da faculdade = UM MEGA PEPINO!

Sempre gosto muito de observar o comportamento do funcionário público ou privado quando o superior não está por perto. A cada atendimento, pausa para mexer nas gavetas, levantar, ajeitar o material de trabalho, sentar, atender o telefone, checar e-mails, olhar o celular, ir ao banheiro, escreve qualquer coisa, falar com o fulano, tomar café, volta pro computador, respira e chama o próximo. Este procedimento é quase ritualístico. Sempre há também a proporção de um competente a cada quatro. Enquanto um atende cinco os outros três atendem cada um, um. Esta sim é uma boa militância trabalhista implícita, nunca divulgada, mas sempre praticada. O funcionário tem que mostrar a competência suficiente para não ser demitido e no resto do tempo fazer valer o salário mal pago vadiando no trabalho (ver: princípio da administração científica – Taylor).

Ao entrar na agência fui pegar minha senha: P329, hora de chegada: 12:23h a chamada estava no número P318. Dez pessoas na frente, 3 pessoas atendendo. Na “lógica” pensei: com uma média de atendimento de 7 min para cada pessoa, com 3 funcionários atendendo, 7min x 10pessoas /3 funcionários  = 23,33 min. Aumentando a margem, 25 minutinhos; tempinho razoável até para um banco mesmo que a lei “proíba” um prazo de espera superior a 15min. Daria até tempo para fazer um almoço gostoso no Maria das Tranças… Quem disse que a matemática é uma ciência exata e que nunca falha não esteve num banco na hora do almoço. Até a famosa “Lei da Vadiagem no Trabalho” de Taylor mereceria revisão alertando que a tendência à vadiagem aumenta quando o funcionário está com fome.

13:07h eu ainda me encontrava sentada no banquinho já que tive a sorte que muitos não tiveram de achar um para sentar. Dois dos três funcionários estavam atendendo os mesmo clientes e apenas uma funcionária mais ágil se ocupava de atender os então clientes já bastante raivosos. A funcionária mais gordinha se encarregou de, assim que terminado de atender a única cliente que se ocupara nos últimos 50min, sair para comer aquela lasanha de queijo que estava me aguardando no Maria das Tranças e a senha se encontrava, pasmem, ainda no número P324 (ou seja: um cliente para cada um dos dois funcionários mais “militantes” e cinco para a outra funcionária).

A senhora sentada ao meu lado, ao olhar para fora fitando a fila dos caixas eletrônicos falou: “ta vendo aí porque a máquina está substituindo o homem? A fila da máquina anda que é uma beleza…”. Nesta hora, com fome e tristeza pensei até em concordar com aquilo, mas lembrei do desemprego estrutural e dos exércitos de reserva. Fiquei calada. À medida que os resmungos iam aumentando (“essa fila não anda”, “nós é que pagamos seus salários”, “funcionário público é assim”, “o banco deve atender em 15min”, “cadê o resto dos funcionários?”, etc.) eu fui imaginando que o resultado seria um levante, um quebra-quebra. Neste momento, uma idosa que havia pegado a senha P337 e depois trocado para um preferencial N907 gritou revoltadíssima: “que sacanagem! Eu peguei uma senha preferencial e agora meu número em vez de diminuir aumentou lá pra casa do caralho!!!!”. Pronto! Um motim para a revolução? Não, uma gostosa e duradoura gargalhada de clientes e funcionários aliviando o clima e descontraindo a todos.

Por ironia do destino, chegando minha vez de ser atendida, o funcionário olha pra minha cara e diz: “O desbloqueio do seu cartão você faz em um minuto lá no caixa eletrônico”. legal, mas o safado me fala isso 13:35 da tarde! Eu tive que esperar mais de uma hora na fila para descobrir que a máquina faz esse serviço em menos de um minutinho????? Puta que pariu!

A velha experiência da jovem democracia

Meu velho avô sempre dizia: “no meu tempo o mundo não era assim…” Puts, mas ontem quem disse isso foi o meu pai! No exato momento pensei: “Daqui a alguns anos serei eu…”.

Todo velho adora repetir isso: “No meu tempo…” Ando pensando sobre isso, mas eu, que (ainda) sou jovem, não consigo ver o presente como “meu tempo”. Para isto há uma explicação bem simples: enquanto os jovens mantêm os olhos no futuro, os velhos os deixam à salvo no passado. Que classe de gente se ocuparia do presente? Será que algum dia viverei o presente com os olhos focados nele ou transitarei diretamente para o “meu tempo” com saudosismo?

Neste falso jogo de poder que muitos chamam de choque de gerações, as forças opostas se anulam. O Novo sem experiência não pode dominar o mundo e o Velho não traz inovações. O “cara do presente” (mesmo que não se dê conta que está no “seu tempo”) acaba ganhando a batalha que nem mesmo travou. Para mim ele se parece muito com o Obama: inovador e experiente, jovial e tradicional. O inovador tradicional que conquistou o mundo porque apesar de jovial também é experiente… Brincando, brincando o “cara do presente” conquistou o mundo no “tempo” do meu avô, no “tempo” do meu pai e no meu “tempo” (se ele já chegou ou chegará).

O tabuleiro desse jogo? Nossa frágil democracia. Eu nasci em 87 e ela em 88. Crescemos juntas e falar dela pra mim é algo tão natural e tão óbvio que é até difícil se pensar que pode haver um mundo diferente deste. Meus olhos sempre à frente, nunca conseguiram notá-la crescendo ao meu lado aqui no presente. Honduras vem à porta revelando uma tradição latino-americana autoritária não tão velha assim, mas que os olhos para o futuro não notaram. O velho bem sabe… Seus olhos atentos ao passado não escondem a aflição de quem [viveu (?) um presente] de censuras.

Está claro que, se a experiência democrática em si, é tão nova quanto o Novo, a luta por ela é tão velha quanto o Velho. Talvez por isso, enquanto o jovem visualiza um tempo em que as insuficiências democráticas serão superadas, o velho se preocupa em conservá-la ciente da sua fragilidade. Se o Novo olha para o futuro e a encara como um pressuposto dado e inviolável, dando-se assim o luxo dela descuidar-se, o Velho a valoriza muito mais, pois conhece o seu custo, mas nada mais pode fazer a respeito uma vez que o seu tempo passou.

Assim, enquanto aqui na Terra nós mortais travamos essa batalha inútil, lá em cima os “today’s men” jogam um xadrez onde novos e velhos não são nem o peão nem a rainha, mas sim peças invisíveis dançando sobre os quadrados em branco do tabuleiro como se fizessem parte dele.