A velha experiência da jovem democracia

Meu velho avô sempre dizia: “no meu tempo o mundo não era assim…” Puts, mas ontem quem disse isso foi o meu pai! No exato momento pensei: “Daqui a alguns anos serei eu…”.

Todo velho adora repetir isso: “No meu tempo…” Ando pensando sobre isso, mas eu, que (ainda) sou jovem, não consigo ver o presente como “meu tempo”. Para isto há uma explicação bem simples: enquanto os jovens mantêm os olhos no futuro, os velhos os deixam à salvo no passado. Que classe de gente se ocuparia do presente? Será que algum dia viverei o presente com os olhos focados nele ou transitarei diretamente para o “meu tempo” com saudosismo?

Neste falso jogo de poder que muitos chamam de choque de gerações, as forças opostas se anulam. O Novo sem experiência não pode dominar o mundo e o Velho não traz inovações. O “cara do presente” (mesmo que não se dê conta que está no “seu tempo”) acaba ganhando a batalha que nem mesmo travou. Para mim ele se parece muito com o Obama: inovador e experiente, jovial e tradicional. O inovador tradicional que conquistou o mundo porque apesar de jovial também é experiente… Brincando, brincando o “cara do presente” conquistou o mundo no “tempo” do meu avô, no “tempo” do meu pai e no meu “tempo” (se ele já chegou ou chegará).

O tabuleiro desse jogo? Nossa frágil democracia. Eu nasci em 87 e ela em 88. Crescemos juntas e falar dela pra mim é algo tão natural e tão óbvio que é até difícil se pensar que pode haver um mundo diferente deste. Meus olhos sempre à frente, nunca conseguiram notá-la crescendo ao meu lado aqui no presente. Honduras vem à porta revelando uma tradição latino-americana autoritária não tão velha assim, mas que os olhos para o futuro não notaram. O velho bem sabe… Seus olhos atentos ao passado não escondem a aflição de quem [viveu (?) um presente] de censuras.

Está claro que, se a experiência democrática em si, é tão nova quanto o Novo, a luta por ela é tão velha quanto o Velho. Talvez por isso, enquanto o jovem visualiza um tempo em que as insuficiências democráticas serão superadas, o velho se preocupa em conservá-la ciente da sua fragilidade. Se o Novo olha para o futuro e a encara como um pressuposto dado e inviolável, dando-se assim o luxo dela descuidar-se, o Velho a valoriza muito mais, pois conhece o seu custo, mas nada mais pode fazer a respeito uma vez que o seu tempo passou.

Assim, enquanto aqui na Terra nós mortais travamos essa batalha inútil, lá em cima os “today’s men” jogam um xadrez onde novos e velhos não são nem o peão nem a rainha, mas sim peças invisíveis dançando sobre os quadrados em branco do tabuleiro como se fizessem parte dele.

6 Comentários

  1. Ficou Bom demais esse texto, Tassinha… de verdade!

    Quando vc falou a questão de já nascermos e crescermos junto com a democracia, vc falou algo que eu também compartilho, de não imaginar uma outra forma, “um mundo diferente deste” E qdo surge um fato que nos mostra um Honduras da vida, uma historia, que ja foi vivida, aparece… E o “Velho” que sabe muito bem o que esse fato significa, sente as dores daquele tempo, o q nós nunca de fato vamos conseguir sentir como eles…

    Parabéns Tassinha… E boa sorte pro Blog!!

  2. ótimo post de estréia

    bem vinda à blogosfera

    falta entrar no twitter agora… hehe

  3. Excelente Tássia! Gostei muito! Bem-vinda à blogosfera!

  4. meu tempo é o presente..
    bom texto!

  5. Tassinha, sua escrita e pensamentos são maravilhosos! Estou em fase de crescimento…chegarei lá! rs!

    • Poxa, depois desse elogio eu vou ficar muito metida… rsrs

      Só não concordo com essa história de “chegarei lá!” (modéstia pura!)

      Valeu amiga!


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