O protagonismo dos teus olhos

Em meu trajeto, cruzo todos os dias por um cartaz qualquer ao qual nunca destinei nada mais que alguns instantes de minha atenção.  Nunca sequer descompassei o passo para observá-lo, mas ainda assim, é impossível passar por ele sem admirá-lo, instantaneamente, como uma bela pintura. Nele estão presentes alguns jovens que jamais recordarei as faces; dentre eles, um rapaz de belo sorriso protagoniza o quadro obscurecendo toda a beleza à sua volta. Sigo caminhando, mas aquela imagem permanece distraindo meus pensamentos por alguns instantes.

Olhe ao redor! Milhares de rostos amorfos; gente que cruzamos todos os dias e que jamais reconheceríamos… Será que alguma delas não foi responsável, em algum momento, por desviar seus pensamentos? Talvez o olhar esteja o tempo todo buscando um referencial, um protagonista para que todas as outras coisas se disponham ao seu redor. São lapsos instantâneos cujos quadros se alteram constantemente; a cada momento, um novo protagonista para cada nova situação. O fato é que, quando menos se espera, lá estamos nós distraindo-nos dos nossos importantes pensamentos para observar uma cena irrelevante qualquer… O fato ocorre; damos-nos conta e desviamos o olhar ao horizonte apenas como pretexto para olharmos para dentro de nós mesmos e remetermo-nos, novamente, aos velhos pensamentos [em que eu estava pensando mesmo? Ah sim… tenho que terminar de ler aquele texto da disciplina, depois eu tenho que…]

Isso dura algum tempo, mas à frente um pouco, me pego novamente observando uma garota de caneta a postos para anotar o telefone do seu conhecido [… aquela camisa parece com uma que eu tenho. Será que eles vão se ligar? De um telefonema, um encontro; de um encontro… que nada, eles estão marcando apenas de fazer o trabalho que devem entregar na quinta; ou então, ela está anotando o nome de um livro que pretende comprar para o namorado e o conhecido nutre por ela um amor secreto; ou, quem sabe, o conhecido não é conhecido, é o amigo confidente gay e está te falando sobre um vídeo que ela não pode perder de ver no youtube. Vai saber? Ela bem que está muito empolgadinha… Mas há tantos motivos que empolgam… Falar em quinta, tenho que terminar aquele livro até quinta senão nunca farei a monografia! Pronto, tá decidido! Quinta, sem falta, só saio da biblioteca quando terminar aquele livro maldito! Duvido que encontre ali algo mais interessante do que já encontrei até agora, mas como não terminá-lo? Na hora da banca vão querer saber justamente a parte que eu não li… como daquela vez…]. Uma coisa leva à outra e, uma distração desvia-lhe novamente o pensar, o pensar desvia o olhar até a próxima distração levá-lo a abandonar o pensamento anterior.

E assim vamos seguindo: distraindo o pensamento com o protagonismo instantâneo da vida alheia. Olhei-o apenas alguns segundos, mas poderia admirá-lo como um telespectador durante horas [desde que permanecesse no anonimato]. Poderia supor sobre sua vida, seus amores, seu cotidiano; perderia horas, se horas houvesse a serem perdidas, é claro! Mas, se não houvesse tanta coisa mais útil a se pensar quando se está simplesmente transitando de um lugar a outro, eu passaria, quem sabe, um pouco mais que alguns segundos admirando-o, mirando seus movimentos, supondo seus pensamentos; até a próxima distração, até perdê-lo de vista… Recordaria seu rosto; mais adiante, um vulto; no fim da tarde, uma vaga lembrança; no final do dia, finalmente, esquecido para sempre! Quantos protagonizaram cenas em meu dia hoje? Dezenas ou até, quem sabe, centenas…  Nunca mais os verei, ou, nossos olhares nunca se cruzarão. Observo-o à distância, ele a observa à distância que observa à distância um outro, que me observa, quem sabe, à distância também… Ou observou algum momento e agora sequer recorda meu rosto.

Assim se segue a vida, de cena em cena, de protagonismo em protagonismo; mas, quem sabe um dia, o telespectador e o protagonista cruzam os olhares? E, se cruzam, recordam-se… E, se recordam-se, não é mais cena, não há mais anonimato… Ela desvia o olhar sem graça, ele nota e também desvia; o ônibus parte e ele ainda a olha novamente, mas ela não quer retribuir o olhar, pois está muito preocupada com a prova do dia seguinte. Um dia se encontrarão na fila do banco, quem sabe, com aquela sensação de que “eu o conheço de algum lugar!” Se despedem sem cumprimentar-se e distraem-se com um outro qualquer que protagonizará seu olhar apenas alguns segundo com o sutil intuito de te  fazer desviar o pensamento daquele estranho conhecido da fila do banco.

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5 comentários em “O protagonismo dos teus olhos

  1. Carlos disse:

    “Eu conheço essa pessoa de algum lugar”… Essa frase quase todo dia na rua aparece na mnha cabeça… Eu “viajo” demais, fico observando as coisas na rua, os movimentos, as pessoas… E ouvindo com isso musica junto tambem… Entao as vezes uma musica me lembra de uma situaçao que eu fiquei “viajando” ou mesmo uma pessoa na fila do banco q estava em alguma situaçao, me recorda tambem, ou pelo menos eu fico me perguntando na hr: “de que situaçao eu lembro dessa pessoa”.. é foda..

    Massa o texto!!

  2. Marietta disse:

    Tassinha, você é de peixes também?! Rs. Me identifiquei muito…eu sou muito distraída e viajo tentando ser protagonista do olhar dos outros. Sabe que é no busu que me vem a mente: “a como eu queria ser Deus”, só por um segundo, para desvendar os mistérios das mentes alheias. Dizem que o ‘todo poderoso’ é onipresente, só por isso. Mas, logo a infeliz da razão me cutuca. Então penso, melhor mesmo seria se eu fosse uma X-Girl, rs.

    Amei o texto!

    • bonecapensante disse:

      Eu sou de aquário… acho que devem ser próximos, mas pelo que dizem, aquariano é assim mesmo: vive sempre no mundo da lua. Desde pequenina minha mãe me diz isso… rsrs

      o que viria a ser uma x-girl? Talvez você já seja… 😉

  3. Michele disse:

    Mila!!!!!
    interessante como a gente se identifica com essas relações de protagonismo e distrações e como isso faz parte do nosso dia a dia, sem talvez a gente refletir muito sobre isso. No entanto, a de se considerar que para quem te conhece, como eu, não há de se estranhar que este é seu mundinho muito particular, a lua é sua moradia, ou melhor dizendo : “você não vive em você”…..rsrrsrsrsrsrs

  4. Angelo disse:

    Achei muito bem escrito e muito bem estruturado. vc consegue transmitir situações como realmente são vivenciadas; o anonimato e a fugacidade dos relacionamentos urbanos onde as pessoas participam apenas como slides lançados alternadamente de vários pontos de vista aonde vê-se apenas a imaginação não as histórias de vida.

    Creio que deve continuar a escrever buscando os temas que me melhor lhe relacionem com sua vivência.

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