A Tássia é beeeeeeeeeeem baiana mesmo!

Pois bem! já posso dizer, minimamente, que estou “ambientada” na Cidade Maravilhosa. Fato que, diga-se de passagem, não é lá uma tarefa TÃO difícil assim, mas enfim… O fato é que eu, como todo bom jóvem-sonhador-recém-formado-em-Ciências-Socais, vim de lá [eu estou aqui o que é que há] achando que iria ajudar a quebrar todos os clichês sobre a Bahia, que todos me reconheceriam pela minha personalidade e não pelo meu sotaque, que eu ajudaria a desconstruir a imagem de que todo baiano gosta de carnaval e acarajé e, principalmente, de que todo baiano é lento e preguiçoso! Enfim… Estava disposta a mostrar “o que é que a baiana tem?” e que isso ia muito além da mistura de pimenta com dendê.

Acho muito delicado falar sobre esse assunto porque a mim causa certo estranhamento que uma condição tão particular de existência (ser, nascer baiano) se torne algo tão forte no meu cotidiano. Sendo um pouco mais clara, me sinto meio estrangeira no meu próprio país, como se a Bahia não fizesse parte do Brasil, como se fosse um mundo paralelo onde todas as pessoas andassem requebrando na rua, fossem sempre felizes e sorridentes, extremamente sexualizadas e permissivas. Como [quando? e por quê?] ser baiano no Rio de Janeiro se tornou uma espécie de “grande acontecimento”? Provavelmente a espontaneidade forçada de suas cantoras de axé, a malemolência carnavalesca e tropicália dos nosso grandes ícones (e anti-ícones) musicais ou a caetanidade extremada da fala de suas principais figuras tenham, em alguma instância, contribuído para toda essa “baianidade” construída, certamente, muito mais fora da Bahia do que dentro.

No primeiro dia de aula, na primeiríssima vez que me apresentei à turma e falei “bom dia” o professor já soltou aquela velha frase que escuto por aqui pelo menos umas 3x por dia: “você é baiana? Ô terrinha boa!” [e você, tentando ser simpática, tolera o comentário achando que é uma questão de tempo e adaptação…]. Na aula seguinte a cena se repete, mas eu mesma, baiana com síndrome de identidade aflorada, contribuo para aquele velho clichê baiano:

– “Você é da Bahia? Ô terrinha boa!” Chegou de pára-quedas aqui no Rio?

– Tô chegando…

– Normal, baiano ta sempre “chegando”…

–   …    [porque eu fui abrir minha boca?]

[muitos risos generalizados]

Err… Enfim…

Certamente foi ingênuo da minha parte achar que tudo era uma questão de tempo… Alguém escreveu esses dias no facebook algo como: “por que fora da Bahia todo mundo vira baiano?”.  Eu tive que me acostumar com o fato de que o Fulano, a Beltrana e a Cicrana do seu lado são identificados pelos seus respectivos nomes enquanto você ganha o carinhoso e “criativo” apelido de a baiana. Igualmente, tive que me acostumar com coisas como: “a gente não vai trabalhar no ritmo da Bahia, mas sim no ritmo do carnaval da Bahia” ou “toda baiana é arretada!”, “toda baiana é fogosa”, “toda baiana é uma pimenta”, “toda baiana” isso, “toda baiana” aquilo; ou ainda, com o fato de sempre ter que ouvir alguém “imitar” o jeito baiano de falar como se a gente tivesse engolido um apito e, ao mesmo tempo, espetado um alfinete na ponta da língua:

– “oxentí, tú é da Bahia é? Víci bixin”

E, para quem achar que é exagero, SIM, ELES SEMPRE FALAM A MESMA COISA!

A verdade, no entanto, é que não dá pra ficar com raiva dos cariocas; eles adoram os baianos [err… talvez o mais correto seria dizer que “os cariocas adoram as baianas…” rsrs]. Toda vez que pela milionésima vez no dia alguém diz “Você é da Bahia? Ô terrinha boa!” sempre vem acompanhado da seguinte frase: “eu conheço um/uma baiano/a que é suuuuuper gente boa!”.  Poxa, confesso, quando isso acontece acho suuuuuper gratificante ser reconhecida como a baiana! Aí amoleço o coração, esqueço minha “militância” e até dou uma ajudinha no sotaque:

– Não moço, baiano não fala assim não; baiano fala assim: “Oxeeeeeente, tu é da Baaahia é???? Mas rapaaaz, Viiixe!!!

Semana passada estava estudando estatística com a turma e de repente gritei de lá da minha cadeira: Oxeeeeeeeeeeeeeeeente! Mas não enteeeendi foi nada agóóóra” e a Janete, minha colega de turma, riu e disse: “A Tássia é beeeeeeeeeeem baiana mesmo!” E sabem, isso foi a coisa mais sensível e delicada que eu já ouvi desde que cheguei aqui no Rio de Janeiro. Não sei, vocês podem achar um exagero, mas não é muito lindo ter reconhecido o lugar de onde você vem apenas pelo seu jeito de ser? É muito bom quando alguém me diz: “logo se vê que você não é daqui”, não porque eu quero me distinguir do povo carioca [quando a gente ta num lugar o que a gente mais quer é se aproximar], mas justamente porque algo em mim me remete ao lugar que venho. O que a Janete me fez perceber, na verdade, é que desde que eu cheguei no Rio tenho contribuído, e muito, para a tal “baianidade construída muito mais de fora da Bahia do que de dentro”. Sempre que alguém fala alguma coisa sobre qualquer assunto, lá vem a Tássia Camila dizendo: “lá na Bahia a gente faz assim”, lá na Bahia tem sempre pimenta pra acompanhar o prato”, “os baianos são mais animados”, “lá na Bahia” isso, “lá na Bahia” aquilo. Vez ou outra eu até tempero mais a voz com um sotaque beeeeeeem mais baiano que de costume só pra ouvir mais uma vez a velha frase “Você é da Bahia? Ô terrinha boa!” de sempre! E, sempre que alguém me diz que NUNCA COMEU ACARAJÉ NA VIDA ou NUNCA COMEU UMA MOQUECA COM DENDÊ, nem sabe do que é feito um CARURU ou um VATAPÁ, até eu começo a acreditar que a Bahia é mesmo um outro mundo completamente diferente…

Amigos conterrâneos, me perdoem, mas pra ser bem sincera com vocês, a verdade é que eu até já desisti dessa tal “militância”… Antes de morar longe da Bahia tudo que a gente não quer é ser rotulado e identificado pelas nossas características generalizantes ou na superficialidade das “palavras-chave”: pimenta, acarajé, dendê e carnaval; entretanto, tenho até que prestar minhas sinceras desculpas aos cantores de axé e aos tropicálios por todas as vezes que os xinguei em pensamento por disseminar uma baianidade mais baiana que a nossa; mas a pura e derradeira verdade é que Fora da Bahia a gente é beeeeeem mais baiano mesmo!

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10 comentários em “A Tássia é beeeeeeeeeeem baiana mesmo!

  1. ramon disse:

    é. aquela velha história né… a gente sai da bahia, mas ela jamais de nós…
    manda vê nos Oxentes ai mesmo tassita, bjo

  2. Fabio disse:

    entende agora como os Cabulenses se sentem nas visitas diplomáticas pelo mundo afora…

  3. Jana disse:

    Prima,
    n me leve a mal mas c achava mesmo q VOCE, logo voce, ia desconstruir ” a imagem de que todo baiano gosta de carnaval e acarajé e, PRINCIPALMENTE, de que todo de que todo baiano é lento e preguiçoso”?!!!
    Ô, a ingenuidade baiana!!! 😀
    saudades

    • bonecapensante disse:

      Pois é! Isso faltou falar no post… O pior é que eu sou quase um clichê personificado de baianidade… rsrs

  4. Tati Borin disse:

    Oi Tássia, tranquilo?
    Primeiro quero dizer que sempre dou uma lida no teu blog [descobri através do Mak, nosso amigo em comum] e cara.. tu escreve tri bem! =)

    Enfim… esse post mexeu com minhas entranhas e resolvi comentar.. hehehe eu sou gaúcha e sempre, eternamente, qdo saio daqui ouço as mesmas coisas [guardadas as regionalidades ouço “bah, guria!” em vex de “oxentiii” hehehe] e sempre acabo me conformando pq é algo que as pessoas sempre fazem. E notei que, na verdade, elas tentam nos incluir nesses nossos períodos fora. Aprender como que a gente fala (e não o que a TV mostra), nossas peculiaridades e tudo mais… E acho tão gostoso isso… hehehehe
    Enfim, a última coisa é que os cariocas gostam muito de tds as mulheres, fato! hahahaha

    abraços! 😉

    • bonecapensante disse:

      Oi Tati,
      Fico duplamente contente com o seu comentário! primeiro pela forma como vc chegou aqui e segundo, porque é sempre muito legal encontrar pessoas que se identificam com as coisas que de vez em quando escrevo por aqui. Eu concordo com você e na verdade, não é exatamente o que nós mesmo fazemos com as pessoas que vem de outros lugares? Isso integra e ao mesmo tempo ajuda a fortalecer a nossa própria identidade
      Quanto aos cariocas, eu fiz uma brincadeirinha mas a verdade é que eu sinto que os baianOs [e não só as baianas] de uma forma geral são bem vistos aqui mesmo… Enquanto os paulistas, por exemplo, nem tanto!!! rsrsrs
      [Quanto às mulheres, não tenho dúvidas que eles gostam de todas as nacionalidades!] rsrsr
      um abraço e bem-vinda!!!

  5. juan disse:

    Ta encariocando eh??!! Continua com os post ae

    • bonecapensante disse:

      é, eu sei que estou devendo isso… tou sem tempo e com pouca inspiração!!!

      em breve tem post novo por aqui

      bjoooo

  6. Marietta disse:

    Tássinhaaa…é verdade…às vezes nem é preciso está fora da Bahia, é só conhecer alguém de outro estado e pronto: somos mais baianos do que nunca…iaiaiai viu, sei o que é isto!

    Adoro sua escrita,

    Beijim com Axé, rs…e boa semana!

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