Orkut e seus bônus

Hoje recebi um recado no Orkut [destes que, vez ou outra, se recebe de um amigo mais afastado] perguntando como anda a minha pessoa. Contente com a lembrança, respondi meio que no automático “oi, quanto tempo! Eu vou bem, meio na correria, mas é a vida… e vc???”. Resposta típica a uma pergunta típica. Até aí, tudo normal, tudo bem, não há nenhum problema em se querer saber notícias dos amigos… Mas sabe; não tá tudo bem, não! Eu poderia passar horas e horas falando para este meu amigo, do qual gosto muito, o que aconteceu nos últimos 6 meses que não nos vimos mas, em vez disso,  resumi toda minha trajetória cotidiana a um simples vou bem, obrigado”.

O problema [e a solução] do Orkut é que, por meio dele, mantemos sempre aquele contato com os amigos distantes. Por meio das fotos e atualizações você, de certo modo, acaba participando da vida deles: se casaram, se tiveram filhos,se formaram-se, se viajaram, se estão tristes ou se estão felizes. A praticidade e precisão da informação é tão satisfatória que criamos a falsa sensação de que nada mudou desde a ultima vez que vocês se viram há 3, 6, 10 anos atrás. Quando restar alguma dúvida ou bater a saudade, podemos recorrer ao velho e prático recado online e saber se está tudo bem?” com aquele querido amigo. E você faz isso em 2 minutinhos, não gasta tempo, nem telefone, nem transporte. O outro se sente feliz com a lembrança e grato pela manutenção da amizade.

No jogo The Sims 3 tem um recurso que talvez se assemelhe às vantagens do Orkut. Há uma espécie de bônus chamado  “felicidade duradoura”  que você acumula e troca por  algumas facilidades cotidianas; dentre elas, há uma chamada “amigo eterno” capaz de manter uma amizade à distância sem precisar manter o contato com o outro [além do amigo eterno, podemos comprar outras coisas super úteis como, por exemplo, nunca precisar ir ao banheiro, tomar banho ou quase nunca sentir fome].  Na especificação do “produto” fala: “você não vai precisar manter o contato com seu amigo, pois ele sabe que você continua sendo o mesmo”. E sabe? É isso que o Orkut é nas nossas vidas: um bônus de “facilidade cotidiana”. Ele permite-nos ocupar das coisas realmente importantes da vida e, ao mesmo tempo, manter aquela amizade inabalada. O grande problema com isso é que o Orkut não é um espelho das nossas vidas. Nós não somos aquela definição do perfil que diz “quem eu sou” e as nossas conquistas, feitas, realizações e fotos não representam nada mais que pequenos flashs da nossa vida real. Será que é pedir demais se eu quero amigos que saibam quando tá tudo [realmente] bem! ?

No automático e com a euforia da lembrança, escrevi o recado oi, quanto tempo! Eu vou bem, meio na correria, mas é a vida… e vc???. Escrevi o recado, mas não enviei porque tudo aquilo me soou meio falso… E, apenas quando tentei escrever algo mais consistente e real, que me dei conta da dificuldade de fugir do óbvio. Talvez seja este o problema… O problema destes recados formais [e até ritualísticos] é que este tipo de [falso] contato tanto mantém o vínculo com o correspondente, quanto nos afasta deles. Se perguntamos a alguém como ela vai e, na resposta, não contém nenhuma novidade, nunca iremos despertar para a vontade de vê-las pessoalmente. Por outro lado, seu amigo dificilmente vai escrever uma carta sobre sua vida e seus últimos acontecimentos. No ultimo caso, se nada estiver tudo tão bem assim, o máximo que ele pode responder é precisamos nos ver”, mas você provavelmente vai interpretar tal recado como mais uma resposta automática e vai responder É vamos marcar um dia aí!”

Mesmo tendo muito amor e carinho para com o respectivo correspondente de Orkut, quando perguntamos a alguém como você está?” fazemos por MERA FORMALIDADE e sempre esperamos ouvir algo do tipo: Eu vou bem, meio na correria, mas é a vida… e vc???” Ora, que sentido há nestas perguntas e respostas vazias de [real] significado? O recado que você levou 2 minutos entre ligar o computador, abrir o Orkut e entrar na página do seu amigo vale como uma espécie de bônus “amigo eterno”? “Depois deste recado posso passar mais 6 meses sem ver meu amigo, pois o mesmo não tem nenhuma novidade, mas nossa amizade é tão especial que supera a enorme distância que há entre minha casa e a dele” [subconscientemente podemos ser induzidos a acreditar].  E assim, de bônus em bônus, poderemos todos cultivar amizades eternas por toda a nossa vida mas, quando você morrer, eles serão informados pelo Orkut e será tarde demais para o precisamos nos ver.

Na verdade, não culpo o Orkut! Também não culpo a mim nem aos meus amigos se esta é a forma moderna de cultivarmos as amizades. Talvez tenhamos de nos adaptar a isso…  Mas, quer saber? E o abraço? Não é importante? E olhar nos olhos? E sair juntos, assistir um filme, beber juntos, conversar bobagens, passar o tempo ou se empolgar com as mais bobas novidades não é importante?  Não sei o que você acha, mas a gente podia sentar e conversar isso pessoalmente, não?

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Seria um domingo qualquer…

Dia internacional da preguiça, parece que a melhor coisa a se fazer num domingo de chuva ou sol é mesmo ficar em casa de pernas para o ar. Eu, entretanto, longe de fazer jus ao dia, estava estudando materialismo filosófico em Epícuro e sua influência na dialética marxiana. Mas, meus senhores, eis que surge a “TV” este ente diabólico que não serve para mais nada além de nos fazer protelar as coisas verdadeiramente úteis da vida que deveríamos estar fazendo.

Camila, venha ver correndo!” [meu pai] “Ah não, tou estudando”! [mas a curiosidade…]

Chegando à TV, Gugu exibia o curioso caso de Jocélia: uma criança com uma doença genética raríssima chamada “progéria”, capaz de acelerar o processo de envelhecimento do corpo. A garotinha, que mentalmente tem todas as características de uma criança de sua idade (9 anos),  fisicamente detém todas as características e doenças típicas de uma pessoa de 70 anos.  A doença não tem cura e a estimativa de vida de alguém com progéria não passe dos 16 anos. Se o acaso do seu nascimento já é motivo mais que suficiente para causar ao telespectador enorme dor, a extrema miséria da sua grande família [como a carência de coisas mais que básicas como fogão] é algo que agrava [E MUITO!] esta sensação.

Ainda que o caso da pequena Jocélia tenha me deixado muito mal, a matéria seguinte foi realmente um verdadeiro choque! [Eu não sei por que escolhem os domingos para fazer este tipo de coisa… Domingo já é, por natureza, um dia depressivo mas, se alguém quiser se matar de desgosto do mundo, sugiro que ligue a TV no próximo domingo…]  Um programa do qual não me recordo agora [desses, tipo “globo repórter”], exibiu uma matéria sobre o efeito do crack nos bebês de mulheres viciadas. Simplesmente, além de todas as sequelas irreversíveis da droga sobre os bebês [de deficiências físicas a retardamentos mentais], estes anjinhos já nascem viciados na droga. Não… Você não leu errado… Bebês viciados na substância mais destrutiva que o homem já criou! A criança tem crise de abstinência [é a coisa mais bizarra que eu já vi em minha vida]. Somada a infeliz realidade, tem-se a triste estatística que revela que mais de 80% dos bebês de mães viciadas são abandonados no dia do nascimento com abstinentes e sequelas irreversíveis e de que grande parte destes bebês são soro positivo.

Além do fato de ambos terem sidos exibidos num dia de domingo,  talvez estes dois casos não tenham muitas coisas em comum… Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: estamos  aqui de falando “problemas individuais” [da criança que nasce com uma deformação genética incomum; ou dos bebês filhos de mães viciadas que já nascem condenados à infelicidade] ou de “problemas sociais” [a ausência de condições minimamente dignas para famílias enormes que sobrevivem com ¼ de salário mínimo por mês; ou da ausência do Estado em prover programas redução de danos sobre os efeitos das drogas, campanhas informativas, ou  a polêmica liberalização do aborto]?

Nossa moral [cristã] coletiva nos leva a acreditar que o direito à vida supera tudo. Mas isso para mim é o típico “egoísmo moral”; porque enquanto as Jocélias da vida estão, nos seus dias de domingo, passando muito mais necessidade que a própria fome, eu, Tássia Camila, garotinha de classe média, estou escolhendo entre ler Epicuro e materialismo ou ver TV. É reconfortante termos a bíblia ao nosso favor, para falar que, como Lázaro, aquele que sofre na terra será recompensado no céu; ou, ainda, usar o espiritismo para dizer que aquele bebezinho recém-nascido tem um carma a cumprir e está pagando pelo mal que fez em outras vidas. É… Moralmente é reconfortante! Isso nos faz conseguir ver algo do tipo e voltar aos livros depois, [ou à novela…]

Como? Eu pergunto: como ler Epícuro, que fala do bem estar aqui na terra e não lá no céu, e aceitar que, para além do meu bem-estar não é problema meu? Não, amigos, não são “problemas individuais” se o crack está devastando o mundo… Não é porque estas pessoas são fracas e não é problema (só) da mãe se seu bebê nasceu com sequelas e foi abandonado à própria sorte. [na verdade, nem quero entrar no mérito da questão se a mãe é ou não culpada  pois, para mim, isto é irrelevante…], o que eu quero falar, é que, se estes casos são recorrentes, não podemos vê-los como “problemas individuais”. Será que cabe manter nossa moral cristã do “direito à vida acima de qualquer coisa” inabalada diante de coisas do tipo?

Eu sei que isto é polêmico e talvez eu seja acusada de estar sendo superficial [talvez eu esteja, mesmo, sendo superficial], mas, para mim, o Estado que proíbe esta mãe viciada e soro positivo de cometer um aborto de modo seguro, está sendo criminoso. Será que podemos dizer que esta pequena criança tem direito à vida se ela não é, de fato, uma vida digna? Eu me questionei e continuo me questionando isso… E, talvez, desta vez, o prisma moral não seja nosso melhor aliado. Talvez precisemos compreender que apenas “não aceitar isto” é muito pouco. Talvez tenhamos mesmo que entender, por mais contraditório que possa parecer, que ser menos egoísta, neste caso, é pensar em políticas públicas eficientes e não em soluções que nos parecem, a nós e a nossos padrões de boa vida, satisfatórias em nome do “direito à vida”.

Isto estragou meu feriadão, mas… quer saber? O que é um feriadão perto de uma vida que já nasce estragada? Talvez por isso que estas coisas acontecem aos domingos: para que saibamos que não podemos nos dar ao luxo de um típico domingo de pernas para o ar sem, no mínimo, nos chocarmos com certos “problemas individuais”.

11:11

O pai de meu primeiro namorado tinha [provavelmente ainda tem] a estranha mania de olhar no relógio sempre às 11:11. Não… não é nada programado, mas sempre que ele olhava no relógio era exatamente 11:11 [nunca 11:13, nunca 11:12]. Eu até já supus coisas muito misteriosas sobre seu estranho [hábito?]; ou melhor, sobre sua estranha “coincidência”. Fato é que, para além de todo misticismo que minha cabecinha pudesse supor, lá estava o evento ocorrendo deliberadamente. Eu, mantendo as devidas distâncias de “nora”, nunca saciei minha curiosidade de perguntá-lo, sequer, o que havia demais em ser 11:11, ou 11:12 ou ainda 12:12, 10:10… O namoro acabou, mas a curiosidade não… E, pior que isso, não só não cessara a curiosidade, como o estranho “evento” começou a ocorrer comigo…

Cabe esclarecer, meu relacionamento com o tempo é, digamos, singular… Eu não carrego relógio e nunca sei a hora. Posso passar horas e horas e horas meeesmo completamente perdida no tempo, sem me importar nem um pouco com o desconhecimento. Apesar disso, tenho um tipo de rotina relativamente pré-estabelecida: acordar às 5:30, sair às 6:30, chegar na academia às 7hs, malhar até às quinze para as nove. Tomar balho e ir para a aula às 9h, assistir aula até as 13hs, almoçar às 13:30, ir para a pesquisa às 14hs etc, etc, etc. Quando, efetivamente, quero saber as horas, pergunto a alguém que tem relógio e, como ocorre, ninguém responde “agora são exatamente 17 horas, 23 minutos e quinze segundos, dezesseis, dezessete… ” Eles ocasionalmente respondem aproximando de cinco em cinco minutos.  Se é 16:03 responde-se 16:05; se é 16:01, responde-se 16 e assim sucessivamente para todas as 24horas e seus respectivos 60 minutos do dia.

Bem, mas voltando ao que interessa, se quando quero saber as horas  sempre pergunto a alguém, o “evento” místico nunca deveria ocorrer comigo, certo? Mas, incrivelmente, ele SEMPRE ocorre. Às vezes, estou num engarrafamento [daqueles] sem previsão de chegada distraída pensando sobre a vida, observando as pessoas e, quando menos espero, lá está o enorme relógio de trânsito marcando exatamente 11:11. Vou ao shopping, olho uma vitrine e lá está um relogio redondo fofete marcando exatamente 11:11. Vou a uma sessão de cinema despreocupada com o tempo e quando olho a hora do visa: exatamente 11:11. ligo o computador para olhar meu email e, tchan tchan tchan tchan: 11:11. E assim, a “maldição” segue me atormentando por anos… Ele me persegue de tal forma que uma vez fui perguntar as horas a um senhor ele me disse: “são exatamente 11 horas e 11 minutos”. [ vocês conseguem supor como eu fiquei estarrecida?]. “Desculpe-me senhor, o senhor disse 11:11?” “sim, mas agora já são 11:12”; “ah, ok, muito obrigada, pensei ter ouvido mal”.

Um belo dia, num desses encontros misteriosos com o número 11:11, decidi finalmente matar minha curiosidade e pesquisar se ocorriam mas fenômenos do tipo pelo mundo. Para minha surpresa encontrei não uma, mas várias interpretações diferentes envolvendo bruxas, fim do mundo, 11 de setembro, sistema solar, cosmologia, Nostradamus, maias, Jim Cary e sei lá mais o quê. Enquanto a maioria das “teorias” que consultei relaciona 11:11 a eventos negativos [tem uma, por ex, que interpreta 11:11 como a hora em que as portas do inferno se abrem e que todos os demônios saem], uma especificamente me deu uma utilidade prática e positiva ao “evento místico”: dizia que você deve fazer um pedido sempre que ver a hora sendo marcada 11:11. A partir desse dia a “minha vida mudou”, pois 11:11 não era mais uma maldição, mas sim uma expectativa. Meus Deus, 11:11! rápido um pedido, rápido o tempo vai passar e 11:12 já não vale mais… Conseguir isso, fazer aquilo, encontrar determinada coisa, fazer tal coisa, ganhar na loteria, etc. De tantos pedidos, alguns se realizaram, outros [mais especificamente, ganhar na loteria] não. Mas o fato é que isso deixou de me fazer mal, pois encontrei uma utilidade moral ao mistério! Aliás, hoje em dia, não só adoro ver 11:11 no relógio, como às vezes vejo 11:10 e dou uma trapaceadinha sem ninguém perceber… No fundo, para além de todo misticismo, 11:11 é exatamente a mesma coisa que 12:12, que 5:37 ou que qualquer outro número. Várias vezes ao dia olhamos o relógio e não nos preocupamos com o horário, mas, por 11:11 carregar todos estes misticismos, tendemos a enfatizar com mais precisão e recordar melhor este fato que qualquer outro momento do dia.

Há pouco olhei no relógio e vi que eram exatamente 11:11. Meu Deus, 11:11! rápido, um pedido, rápido, o tempo vai passar… Quer saber, hoje não vou fazer um pedido… pois como a Márcia Goltmith disse [é, eu sei… rsrs… mas um dia, sem querer, ouvi algo que tem todo o sentido…], nunca devemos pedir aquilo que a gente quer; a gente tem que pedir aquilo que a gente precisa agora neste momento. Pois aquilo que a gente deseja hoje, pode não só não ter nenhuma utilidade amanhã, como também pode, na verdade, atrapalhar… E é verdade mesmo! Já ocorreu comigo algumas vezes de conseguir algo que eu queria muito, mas perceber que aquele querer não tinha mais sentido…

Ao recusar o “pedido”, exatamente às 11:11, me senti tão bem comigo mesma… Me senti bastada em mim… e essa é uma sensação maravilhosa! Me senti assim por exatamente UM minuto, pois, quando deu 11:12: PUTS! Deveria ter pedido para fazer uma boa prova de antropologia IV na segunda-feira, pois isso eu REALMENTE preciso… Droga! fazer o quê? Hum… acho que vou dar uma trapaceadinha amanhã!

Monografia, perdas e ganhos

Hoje eu acordei de “melhor humor”… Não sei bem o motivo, mas talvez tenha um pouco a ver com a noite anterior [mentes perversas, não é o que vocês estão pensando!] que foi aniversário de 27 anos de casamento dos velhos [viu aí? rsrs]. Apesar de ter passado o dia inteirinho de mau humor e com dor de cabeça, e, a princípio ter odiado o lugar que escolheram para a confraternização: o Caranguejo do Sergipe [que para uma vegetariana não havia nada ao consumo além de água de coco, batata frita e queijo coalho na chapa] com um atendimento excepcionalmente ruim [na verdade o garçom era gente boa, mas o local estava lotado] e uma música extraordinariamente terrível [aqui não tem alívio não!]. Apenas duas coisas conseguiam competir com o som [barulho estridente] da banda: uma mulher barraqueira que resolveu fazer uma D.R pública e uma TV enorme com caixas de som gigantescas passando o bom velho jogo do Baêeea com seus respectivos torcedores insuportavelmente fanáticos. Por incrível que possa parecer, mesmo com todos estes “apetrechos” propícios ao desastre, tudo ocorreu da melhor forma possível e foi muito bom sair com a família…

Bom, mas o que eu quero falar mesmo, não é de ontem, mas sim de hoje… Engraçado que, enquanto ontem, com tudo tendendo à tragédia, tudo ocorreu inesperadamente bem, hoje quando tudo parecia bem, eis que…  tcham tcham tcham… Tragédia!

Como eu ia dizendo, acordei de bom humor, disposta a malhar, ir à praia, ir ao cinema, estudar, escrever monografia ou fazer coisas que a disposição faz a gente ter vontade de fazer. Como gosto de malhar bem cedo e acordei meio tarde, acabei deixando a parte do malhar pra lá; como o tempo não estava para muitos amigos, acabei também deixando a praia e o cinema e decidi que me aplicaria exclusivamente aos estudos e à monografia. Na verdade, aplicar, aplicar mesmo, venho me “aplicando” nela desde o início de abril. Fato que torna-se perceptível pelo fato de que os meses de abril e maio foram os meses mais produtivos de minha vida! Produtivos, em absolutamente tudo, menos monografia! Em abril eu li 6 livros dos melhores e mais clássicos da literatura, fui às boas festas da cidade, assisti aos mais esperados filmes do cinema, fiz yoga, pilates, boxe, musculação, escrevi um monte de coisas [até poesias], achei um monte de coisa legal na internet [PC Siqueira], fiquei preta de tanta praia… No mês de maio maneirei um pouco na diversão, parei de farrear, parei de beber [de verdade!], estudei um pouco as disciplinas da faculdade, trabalhei um pouco mais na monografia, continuei com os esportes, comecei a correr, escrevi outras tantas coisas não acadêmicas [até um conto] assisti uma média de 4 a 5 filmes por semana, voltei a desenhar, pintar, moldar… No fundo, o pano de fundo de todas estas atividades era a monografia, pois, fazendo todas estas coisas nada acadêmicas, nunca deixei de pensar nela… E, acho até que fazer tudo isso ajudou na minha própria monografia: se não ajudou diretamente, ajudou a ter, pelo menos, uma melhor disposição ao ato de “monografar”… Ok, ok! Isso parece o paradoxo do buzú [quanto mais você espera, menos espera]: quanto menos eu “monografo”, mais disposição eu tenho ao ato de monografar. Mas, é bem por aí mesmo…

É… Foram meses intensos… E só não podem competir com os dois primeiros meses do ano porque eu estava conhecendo a Latinoamérica e, dificilmente algo pode competir com isso, mas, mesmo assim, foram dois respeitáveis [e agradáveis] meses… Poderia, hoje, por exemplo, estar arrependida, mas, graças unicamente ao que aconteceu hoje, estou muito aliviada de ter “não-produzido” tanto…  Afinal de contas, o netbook com todas as minhas produções acadêmicas e não-acadêmicas quebrou e lá se foram fotos da viagem, poesias, fichamentos de livros da saraiva que não queria/podia comprar, contos, trechos de livros que usaria na monografia, links de vídeos maneiros do youtube, meu capítulo de monografia, minhas músicas de Maria Bethânia, minha página de prediletos, textos que meu orientador recomendou ler, um post que estava quase pronto, fichamentos de livros das disciplinas, etc.  Enfim, coisas que eu posso recuperar ou nunca mais ver na vida…

Entretanto, como a gente tem sempre aquela velha mania de tentar ver o lado bom da vida, só uma coisa vem à minha mente neste momento: se eu não tivesse me empenhado tanto na arte de “não-monografar”, não tivesse assistido tantos filmes, lido tantos livros, saído tantas vezes, feito tanta coisa legal, o que me restaria hoje? Seis livros e dezenas de filmes a menos, um pouco de dinheiro a mais, um vídeo-mico-bêbada a menos, 3kg a mais, alguns amigos a menos e uma frustração muito maior de ter perdido 2 meses de minha vida numa monografia que se perdeu em um segundo… Tá bom, tá bom… O ideal seria mesmo que a tragédia não tivesse ocorrido e este post jamais teria existido, mas já esgotei todo o meu arsenal de lágrimas guardadas e então só me resta mesmo tentar ver algo positivo em tudo isso… Para não falar apenas em perdas, ganhei uma bolsa lindaaaaaaaaaaaaaaa que eu poderei usar na hora da defesa para dar sorte! Obrigada Liu!

Não sou Primeira Dama

Recordo-me agora da eleição de Barack Obama… No período de campanha em todos os momentos lá estava a Michele com seu assombroso currículo fazendo poses para fotos e demonstrando ao mundo que toda a sua espetacular formação acadêmica nas melhores universidades dos E.U.A foram fundamentais para transformá-la em uma mãe exemplar e a mulher perfeita!  Certamente não são poucas as notáveis mulheres do presidente; elas estão sempre lindas, maquiadas, sorridentes, são sempre compreensivas e, na ocasião da posse, conseguem roubar deles a cena e as expectativas! [qual será a roupa que a Primeira Dama escolheu?] Na verdade, está mesmo no imaginário moderno [ou até, pré-moderno] que todo grande homem tem sempre uma grande mulher por trás… [Jesus, tinha Maria!].  Sempre me deparei com este ditado e nunca me senti à vontade!

Quando criança, gostava de brincar de Presidente (com e no final e não a); quando brincava de cargos de status sempre me punha no masculino… Era o capitão, o empresário, o Presidente… Não era a Presidenta, mas também nunca me imaginei Primeira Dama. Tinha várias Barbies, mas, infelizmente minha mãe nunca me deu o marido; por este motivo, talvez, minhas Barbies eram sempre muito independentes, donas de si, amavam ir às compras e gastar o dinheiro que conseguiam trabalhando no escritório como empresárias de sucesso… Ademais, longe das primas e das Barbies, o que me encantava mesmo era brincar com amiguinhos imaginários… Caminhava pelo sítio de meu avô brincando e conversando sozinha, construindo universos muito únicos e cheios de aventura em que eu era sempre o protagonista. Talvez a culpa seja dos filmes de sessão da tarde [como os trapalhões] em que o herói é sempre o homem e a donzela está em perigo e necessita ser salva. Em contrapartida, entretanto, os melhores conselhos, as decisões mais sábias, a serenidade, integridade e bom senso sempre estiveram com elas… A amada é sempre pura, sempre bela, sempre tão feminina, sempre tão perfeita que o herói não poderia ser herói sem ela… Sem a donzela, certamente ele não seria ninguém…

Olhando para o lar, nunca me imaginei dona de casa…  Meu pai chegava do trabalho, com compras, entregava a minha mãe que preparava o almoço…  Sempre achei, na verdade, muito chato ter que fazer os serviços domésticos e decidi, muito cedo, que eu faria as compras…  Esta “postura” gerou alguns conflitos familiares, pois, como não tinha um irmãozinho, era eu mesma – a caçula – quem ia ao supermercado quando faltava alguma coisa para a elaboração do almoço, mas, preferia isso, um milhão de vezes, a ter que enxugar os pratos! Minha irmã odiava sair para comprar coisas e, graças a isso, eu era o “bicicletaboy” da casa.

Cresci e, mesmo com tudo se inclinando ao contrário, não me tornei uma garota masculinizada; muito pelo contrário, sou demasiadamente feminina em muitos aspectos [adoro me arrumar e ficar bonita para ouvir elogios, mesmo que, na verdade, isso se deva a um enorme sacrifício de anos de minha irmã me dizendo para não ser tão desleixada]; mas, ainda assim, me incomoda muito me sentir, nem que seja numa pequena frase, na posição da donzela em perigo.  Deste modo, me sinto muitas vezes dúbia, pois carente que sou, adoro demais está sempre a postos para um carinho, mas odeio, com todos as forças de minha alma, ser a “namorada do fulano” porque meu nome é Tássia Camila e isso implica toda esta construção que eu citei acima e muitas outras que não foram contadas.  Posso dizer, sem medo de errar, que desde criança batalho muito para não ser aquela donzela que está em perigo e necessita ser salva e para nunca ser uma grande mulher ATRÁS de um grande homem

Sem efeito [borboleta]

Sempre acreditei que escolhas pontuais tivessem a capacidade de modificar completamente o rumo das nossas vidas como se um ato despretensioso fosse decisivo para o futuro. Com os olhos nos erros do passado acreditei que se pudesse voltar atrás em determinada cena, tudo poderia ser diferente…  Será?

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No instigante filme “efeito borboleta” o lindíssimo Ashton Kutcher interpreta um jovem perturbado que tem (ou delira ter) o poder de voltar no tempo e transformar seu próprio destino e das pessoas a sua volta com uma simples mudanças de atitude. Quem não gostaria de poder voltar, nem que seja apenas uma vez, ao passado e “arrumar” as coisas? Mesmo se, no final das contas, nada saísse da forma que imaginamos, não seria bom ter uma chance para recomeçar? Convencida da minha incapacidade de voltar ao tempo, por muitas vezes o meu maior desejo foi somente que ele passasse bem depressa até que um momento em que meus erros simplesmente não me machucariam tanto…

Há cerca de três meses atrás, numa destas tentativas frustradas de regresso ou aceleração no tempo, tive a inútil idéia de sortear uma data em minha agenda e escrever a seguinte frase: “O que acontecerá neste dia?”. Não sei o que pretendia naquele exato momento, mas esperava me surpreender… O dia sorteado chegou, entretanto, nada de extraordinário aconteceu. Mais curioso que isto foi que aquele dia sorteado não só não foi extraordinário, como também foi o mais ordinário dos dias; tão ordinário que me fez simplesmente esquecer a “data-chave”.

Frustrante? Não encaro assim… Até a rotina mais ordinária tem lá suas virtudes… Dá a feliz e morna sensação de continuidade. E continuidade às vezes é mais atraente que ruptura. Ainda assim, as coisas em seu ritmo menos frenético, mas nem por isso pouco surpreendente, estão sempre se transformando de modo a me fazer pensar que o efeito borboleta é mesmo um efeito inútil. Ele é inútil pelo simples fato de que seria muito cruel delegar a apenas um dia, um instante ou um ato todos os erros e acertos de nossas vidas…

Seria cômico se não fosse trágico…

fila

Diversas são as barbaridades que acontecem em nosso cotidiano. Com a passividade inerente às nossas entranhas, a única forma de extravasar é dando umas boas gargalhadas…

Hoje foi um daqueles dias que a gente tira pra resolver pepinos. Como todo dia 07 é o tão esperado “dia do pagamento” [e de fazer pagamentos] decidi também passar no banco para saber por que não posso mais fazer compras no cartão de crédito.  Na hora bem que me perguntei: por que eu estou fazendo tanta questão de ganhar mais dívidas? Mas o espírito [de porco] consumista falou mais alto! Na verdade, há muito tempo eu já havia notado que o banco é o amigo diabo; eu ganho uma bolsa de 300 contos, eles me dão um limite de 200 no cheque especial e um crédito de 600 no cartão. Fazendo os cálculos, +300 -200 -600 = 500 devedor + juros + transporte + alimentação + material da faculdade = UM MEGA PEPINO!

Como uma espécie de hobby para não surtar em filas, sempre adotei a estratégia de  observar o comportamento do funcionário público ou privado quando o superior não está por perto e percebi que há , de fato, certo padão… A cada atendimento, pausa para mexer nas gavetas, levantar, ajeitar o material de trabalho, sentar, atender o telefone, checar e-mails, olhar o celular, ir ao banheiro, escreve qualquer coisa, falar com o fulano, tomar café, volta pro computador, respira e chama o próximo. Este procedimento é quase ritualístico. Sempre há também a proporção de um competente a cada quatro. Enquanto um atende cinco os outros três atendem cada um, um. Podem me chamar de louca por isso, mas acho que esta, sim, é uma boa militância trabalhista implícita, nunca divulgada, mas sempre praticada. O funcionário tem que mostrar a competência suficiente para não ser demitido e no resto do tempo fazer valer o salário mal pago vadiando no trabalho (ver: princípio da administração científica – Taylor).

Ao entrar na agência fui pegar minha senha: P329, hora de chegada: 12:23h a chamada estava no número P318. Dez pessoas na frente, 3 pessoas atendendo. Na “lógica” pensei: com uma média de atendimento de 7 min para cada pessoa, com 3 funcionários atendendo, 7min x 10pessoas /3 funcionários  = 23,33 min. Aumentando a margem, 25 minutinhos; tempinho razoável até para um banco mesmo que a lei “proíba” um prazo de espera superior a 15min. Daria até tempo para fazer um almoço gostoso no Maria das Tranças

É… Mas quem disse que a matemática é uma ciência exata e que nunca falha, não esteve num banco na hora do almoço… Até a famosa “Lei da Vadiagem no Trabalho” de Taylor mereceria revisão alertando que a tendência à vadiagem aumenta quando o funcionário está com fome.

13:07 eu ainda me encontrava sentada no banquinho já que tive a sorte que muitos não tiveram de achar um para sentar;  dois dos três funcionários estavam atendendo os mesmo clientes e apenas uma funcionária mais ágil se ocupava de atender os então clientes já bastante raivosos. A funcionária mais gordinha se encarregou de, assim que terminado de atender a única cliente que se ocupara nos últimos 50min, sair para comer aquela lasanha de queijo que estava me aguardando no Maria das Tranças e a senha se encontrava, pasmem, ainda no número P324 (ou seja: um cliente para cada um dos dois funcionários mais “militantes” e cinco para a outra funcionária).

A senhora sentada ao meu lado, ao olhar para fora fitando a fila dos caixas eletrônicos falou: “ta vendo aí porque a máquina está substituindo o homem? A fila da máquina anda que é uma beleza…”. Nesta hora, com fome e tristeza pensei até em concordar com aquilo, mas lembrei do desemprego estrutural e dos exércitos de reserva. Fiquei calada. À medida que os resmungos iam aumentando (“essa fila não anda”, “nós é que pagamos seus salários”, “funcionário público é assim”, “o banco deve atender em 15min”, “cadê o resto dos funcionários?”, etc.) eu fui imaginando que o resultado seria um levante, um quebra-quebra. Neste momento, uma idosa que havia pegado a senha P337 e depois trocado para um preferencial N907 gritou revoltadíssima: “que sacanagem! Eu peguei uma senha preferencial e agora meu número em vez de diminuir aumentou lá pra casa do caralho!!!!”. Pronto, um motim para a revolução? Não.  Uma gostosa e duradoura gargalhada de clientes e funcionários aliviando o clima e descontraindo a todos.

Por ironia do destino, chegando minha vez de ser atendida, o funcionário olha pra minha cara e diz: “O desbloqueio do seu cartão você faz em um minuto lá no caixa eletrônico”. legal, mas o safado me fala isso 13:35 da tarde! Eu tive que esperar mais de uma hora na fila para descobrir que a máquina faz esse serviço em menos de um minutinho????? Puta que pariu!