Ai ai… as coisas que jamais escreverei

Desde o Natal eu não posto nada aqui… Mas tanta coisa aconteceu em minha vida desde o Natal, que talvez vivê-las fosse mais importante do que escrever e/ou refletir sobre… Muitas vezes me senti ‘metamorfose ambulante’, mas não tanto em tão pouco tempo! Em algum lugar se disse que “se depois das tempestades sempre vêm tais calmarias, que soprem os ventos até acordar a morte!” e, apesar de agora nem lembrar quem foi que escreveu isso [ah, eu acho que foi Shakespeare em Otelo], nunca conheci uma frase mais reconfortante que esta. Não é bom viver a tempestade à espera da calmaria? Sim, talvez… Aliás, talvez não! E, aos desabrigados do Rio de Janeiro essas calmarias não seriam falsamente confundidas com o silêncio profundo das ausências? Não, eu não quero a calmaria das ausências! Essa, senhores, eu não quero!

Mas quem sabe não estejamos errados em evitar as tempestades?  Minha irmã diz que, especificamente a mim, não há ditado mais coerente do que aquele que diz “aqui se faz, aqui se paga!” porque eu SEMPRE pago pelos meus atos. Mas sabe o que eu penso sobre isso? “Eis aqui uma Mulher que viveu todas as tempestades que cruzaram seu caminho”. Sim, vivi TODAS! Não como uma rocha que sobrevive firme, intacta. Muito pelo contrário, ao fim de cada tempestade lá me vi completamente devastada! Mas oras, não estou eu aqui, afinal, escrevendo sobre as coisas que jamais escreverei?

Então… Eu acho que estão vindo tais calmarias… Só espero que não sejam de ausências…

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Ciclos

Antes que vocês leiam esse post, quero dizer que há aqui uma situação especial. Eu o escrevi ontem, quando estava muito triste, mas uma queda de intenet me impossibilitou de postá-lo… Hoje, entretanto, quem diria, tudo aquilo que escrevi já não tem mais o mesmo sentido.  É Natal, porra! A data mais esperada desde que eu tenho uns 3 anos de idade e eu queria estar passando uma mensagem positiva e feliz. Mas, mesmo que tais palavras que se seguem pareçam meio melodramáticas, decidi postá-las!

FELIZ NATAL A TODOS QUE GENTILMENTE PASSAM POR AQUI DE VEZ EM QUANDO PARA LER MINHAS BOBAGENS!

Ciclos

Um grande amigo me disse para respeitar os ciclos que se abrem e se fecham o tempo todo. Mas, confesso, no momento em que ele me falou, estava ansiosa em saber tantas outras coisas que sequer pude compreender o significado daquilo. E, para ser sincera, há anos tem sido assim: ele fala lá entre seus códigos e algum tempo depois aquelas palavras me consomem a alma! CICLOS… Esta palavra rodou entre meus pensamentos, como se não encontrasse espaço para acalmar-se entre tantos outros devidamente assentados; estava inquieta, como se buscasse algo além do seu sentido mais que óbvio. CICLOS… Aos poucos, como num estalo, tudo parecia um pouco mais claro… Uma caminhada na Praça do Campo Grande entre o pipoqueiro, o aposentado lendo seu jornal matinal e a esportista de meia idade e…

__ Ah sim, é verdade, agora compreendo! Quer dizer, agora, minimamente, compreendo…

Para além do velho óbvio de que o universo, em alguma instância, é regido por ciclos [como aqueles do nascimento à morte, ou aqueles outros de leis astronômicas universais] o que significa respeitar os ciclos? Significa que eles têm uma projeção calculável onde/quando começam e onde/quando exatamente vão terminar? De repente eu percebo justamente o contrário… Não dá para apressá-los ou interrompê-los, mas talvez, simplesmente, eles não acabem no momento mais conveniente…

__Talvez, em alguns casos, não respeitar os ciclos seja justamente não compreender quando eles se fecham…

Ciclos… Haverá, quem sabe, aqueles que sequer se completam? Se sim, por estes, lamentemos. Afinal, a possibilidade não concretizada não é sempre mais sublime e atraente do que a dura realidade da experiência finda? Lamentar, neste caso, é o caminho coerente e natural. Mas não, não lamentemos por aqueles ciclos que se fecham em momentos pouco convenientes… Eles rompem nossas convicções de espaço/temporalidade e isso causa certo incômodo. Mas não duvide que eles se fecharam! Ora, há que se convir, há certos ciclos que rompem essa necessidade infame e quase viciante que detemos dos tais ritos de passagem. Estes, sim, são ciclos perigosos! Saem pelas portas dos fundos sem que percebamos; sem que, de algum modo, notemos o seu findar… Não será talvez por isso que precisamos desesperadamente das cerimônias de casamentos, aniversários e funerais? Não servem estas para que não se reste a menor dúvida que um ciclo se fechou? E quanto às despedidas? Não precisamos, assustadora e mais desesperadamente ainda, destas tão concretas e, ao mesmo tempo, tão simbólicas despedidas? Necessitamos da carnalidade: pele-a-pele, olho-no-olho como se assim fosse mais fácil crer… Sim, crer.

Mas se eu pudesse dizê-lo, naquele momento, que o problema não está no fato de que os ciclos se fecham? E se eu pudesse dizê-lo que isto não funciona como uma equação binominal entre respeitar ou não os ciclos? Eu o diria: ‘você está enganado!’. E aquilo não consumiria mais a minha alma e sim a dele. Tudo, afinal, não se acaba? O problema não está no findar e sim na dúvida.  Sim, eu diria com muita certeza, mas naquele dia não pude, pois só hoje descobri o quanto a dúvida corrói e a certeza liberta! E somente agora, no exato momento em que estas linhas são digitadas sobre a tela, tenho a leve sensação de que a tal palavra ‘ciclos’ se assentou, em seu pleno sentido, entre meus pensamentos.

Findos também todos os mistérios! Como uma poderosa droga injetada na veia, não seria esse tal vício pelos ritos de passagem, a gostosa sensação de pleno controle sobre todos os ciclos que nos rodeiam? Passaremos, para tantos, mais um natal; depois, a tantos outros, mais um réveillon… E, quando tudo passar, também passaremos – com a certeza que mais um ciclo se fechou. Aí então, a partir da meia noite e um segundo do dia primeiro de janeiro de dois mil e onze, atiraremos todas aquelas promessas do ciclo que se fechou na linha do passado inatingível sem nos preocuparmos muito com nossas frustrações. Refaremos todos os nossos planos para o novo ciclo que se inicia com a clara certeza do que caberá ao futuro e daquilo que sobreviverá apenas como lembrança de um passado cada vez mais longínquo…

Seria um domingo qualquer…

Dia internacional da preguiça, parece que a melhor coisa a se fazer num domingo de chuva ou sol é mesmo ficar em casa de pernas para o ar. Eu, entretanto, longe de fazer jus ao dia, estava estudando materialismo filosófico em Epícuro e sua influência na dialética marxiana. Mas, meus senhores, eis que surge a “TV” este ente diabólico que não serve para mais nada além de nos fazer protelar as coisas verdadeiramente úteis da vida que deveríamos estar fazendo.

Camila, venha ver correndo!” [meu pai] “Ah não, tou estudando”! [mas a curiosidade…]

Chegando à TV, Gugu exibia o curioso caso de Jocélia: uma criança com uma doença genética raríssima chamada “progéria”, capaz de acelerar o processo de envelhecimento do corpo. A garotinha, que mentalmente tem todas as características de uma criança de sua idade (9 anos),  fisicamente detém todas as características e doenças típicas de uma pessoa de 70 anos.  A doença não tem cura e a estimativa de vida de alguém com progéria não passe dos 16 anos. Se o acaso do seu nascimento já é motivo mais que suficiente para causar ao telespectador enorme dor, a extrema miséria da sua grande família [como a carência de coisas mais que básicas como fogão] é algo que agrava [E MUITO!] esta sensação.

Ainda que o caso da pequena Jocélia tenha me deixado muito mal, a matéria seguinte foi realmente um verdadeiro choque! [Eu não sei por que escolhem os domingos para fazer este tipo de coisa… Domingo já é, por natureza, um dia depressivo mas, se alguém quiser se matar de desgosto do mundo, sugiro que ligue a TV no próximo domingo…]  Um programa do qual não me recordo agora [desses, tipo “globo repórter”], exibiu uma matéria sobre o efeito do crack nos bebês de mulheres viciadas. Simplesmente, além de todas as sequelas irreversíveis da droga sobre os bebês [de deficiências físicas a retardamentos mentais], estes anjinhos já nascem viciados na droga. Não… Você não leu errado… Bebês viciados na substância mais destrutiva que o homem já criou! A criança tem crise de abstinência [é a coisa mais bizarra que eu já vi em minha vida]. Somada a infeliz realidade, tem-se a triste estatística que revela que mais de 80% dos bebês de mães viciadas são abandonados no dia do nascimento com abstinentes e sequelas irreversíveis e de que grande parte destes bebês são soro positivo.

Além do fato de ambos terem sidos exibidos num dia de domingo,  talvez estes dois casos não tenham muitas coisas em comum… Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: estamos  aqui de falando “problemas individuais” [da criança que nasce com uma deformação genética incomum; ou dos bebês filhos de mães viciadas que já nascem condenados à infelicidade] ou de “problemas sociais” [a ausência de condições minimamente dignas para famílias enormes que sobrevivem com ¼ de salário mínimo por mês; ou da ausência do Estado em prover programas redução de danos sobre os efeitos das drogas, campanhas informativas, ou  a polêmica liberalização do aborto]?

Nossa moral [cristã] coletiva nos leva a acreditar que o direito à vida supera tudo. Mas isso para mim é o típico “egoísmo moral”; porque enquanto as Jocélias da vida estão, nos seus dias de domingo, passando muito mais necessidade que a própria fome, eu, Tássia Camila, garotinha de classe média, estou escolhendo entre ler Epicuro e materialismo ou ver TV. É reconfortante termos a bíblia ao nosso favor, para falar que, como Lázaro, aquele que sofre na terra será recompensado no céu; ou, ainda, usar o espiritismo para dizer que aquele bebezinho recém-nascido tem um carma a cumprir e está pagando pelo mal que fez em outras vidas. É… Moralmente é reconfortante! Isso nos faz conseguir ver algo do tipo e voltar aos livros depois, [ou à novela…]

Como? Eu pergunto: como ler Epícuro, que fala do bem estar aqui na terra e não lá no céu, e aceitar que, para além do meu bem-estar não é problema meu? Não, amigos, não são “problemas individuais” se o crack está devastando o mundo… Não é porque estas pessoas são fracas e não é problema (só) da mãe se seu bebê nasceu com sequelas e foi abandonado à própria sorte. [na verdade, nem quero entrar no mérito da questão se a mãe é ou não culpada  pois, para mim, isto é irrelevante…], o que eu quero falar, é que, se estes casos são recorrentes, não podemos vê-los como “problemas individuais”. Será que cabe manter nossa moral cristã do “direito à vida acima de qualquer coisa” inabalada diante de coisas do tipo?

Eu sei que isto é polêmico e talvez eu seja acusada de estar sendo superficial [talvez eu esteja, mesmo, sendo superficial], mas, para mim, o Estado que proíbe esta mãe viciada e soro positivo de cometer um aborto de modo seguro, está sendo criminoso. Será que podemos dizer que esta pequena criança tem direito à vida se ela não é, de fato, uma vida digna? Eu me questionei e continuo me questionando isso… E, talvez, desta vez, o prisma moral não seja nosso melhor aliado. Talvez precisemos compreender que apenas “não aceitar isto” é muito pouco. Talvez tenhamos mesmo que entender, por mais contraditório que possa parecer, que ser menos egoísta, neste caso, é pensar em políticas públicas eficientes e não em soluções que nos parecem, a nós e a nossos padrões de boa vida, satisfatórias em nome do “direito à vida”.

Isto estragou meu feriadão, mas… quer saber? O que é um feriadão perto de uma vida que já nasce estragada? Talvez por isso que estas coisas acontecem aos domingos: para que saibamos que não podemos nos dar ao luxo de um típico domingo de pernas para o ar sem, no mínimo, nos chocarmos com certos “problemas individuais”.

Um ano de Boneca Pensante

Todos os meus amigos vão discordar, mas eu juro que sou uma pessoa tímida! Prova disto é que, apesar de na maior parte do tempo ser uma pessoa super comunicativa, em outros  momentos a timidez é tamanha que causa estranhamento até a mim. Basta uma palavra mal colocada, uma situação pouco íntima, uma piadinha maliciosa, uma pergunta indiscreta, um elogio bem intencionado ou um simples olhar mais curioso e lá está Tássia Camila a  procurar o buraco mais próximo…

Timidez… Por mais que nós tímidos insistamos em superar nossos problemas comunicativos, eles sempre nos afetam! [como aquele pé machucado que todos pisam sem querer…]. O constrangimento ocorre; nos damos conta; ficamos vermelhos, amarelos, verdes, roxos; respondemos rapidamente qualquer besteira; tentamos mudar de assunto por um assunto completamente fora de contexto [ – ah, você viu aquela reportagem sobre a reprodução das formigas?] e, uma vez frustradas todas as tentativas, apelamos para a boa e velha lembrança daquele compromisso urgentemente inadiável [puts! Me lembrei agora que tenho que.. comprar… comprar… umas coisas urgentes no supermercado e não posso me atrasar de jeeeito nenhum!]. É amigos… vida de tímido não é fácil… No final a gente sempre sai se odiando por ter falado asneiras e ter feito tudo errado! As ultimas vezes que  passei  situções assim, foram por causa do blog.  Basta que alguém me fale que lê meu blog ou faça algum comentário sobre alguma coisa que eu escrevi para me deixar completamente sem chão.  Acho que o momento mais contrangedor da minha vida [haha… nada exagerado] foi quando encontrei com meu professor de história e ele disse que gostava do meu blog [ como assim??? Meu professor conhece meu blog?] depois do choque, não consigo recordar o que respondi, mas tenho certeza que foi alguma coisa bem idiota e, muito provavelmente, correu tudo muito parecido com a sequência de foras dos tímidos relatada a pouco. Não que eu não goste de elogios… muito pelo contrário, fiquei muito orgulhosa e feliz, mas meio desesperada para recordar se, entre meus posts, haviam muitas bobagens!

Todas as vezes que alguém comenta comigo sobre meu blog, confesso, me sinto meio dúbia: por um lado, fico muito contente e motivada a continuar e, por outro, meio preocupada por transparecer pensamentos ou situações cotidianas que revelam partes desintegradas do todo que representa minha vida. Talvez por este motivo, uma vez postado qualquer coisa, encaro aquilo como um post da Boneca pensante, como se, uma vez transcritas ao blog,  aquelas coisas deixassem de fazer parte de minha vida, dos meus pensamentos e passassem a compor uma narrativa distinta do meu mundo real, mas da qual compartilho. Para cada post transcrito há um turbilhão de possibilidades, de pensamentos, de ocasiões que o tempo, a falta de inspiração ou a  [falta de] coragem não permitiram transformar em post. Há exatamente um ano, quando decidi fazer um blog, tive muitos medos e receios… Alguns, o próprio ato de blogear superou; outros, ainda permanecem, mas não com o mesmo significado que antes: o que era medo, virou desafio e o que era desafio, virou rotina. Se já me preocupei com a forma, o conteúdo, em ser contida, hoje percebo que o improviso também faz parte da dinâmica e se em determinados momentos preferi não falar de meus sentimentos, minhas dores, meus amores, com o tempo descobri que existem muitas formas de se falar sobre diversas coisas sem, necessariamente, explicitá-las

Para finalizar [já que andaram reclamando do tamanho dos textos… rs], gostaria de agradecer aos amigos e conhecidos ou desconhecidos que, de algum modo, me deram apoio e estímulo para continuar blogeando e gostaria de fazer um agradecimento mais que especial a 3 pessoas que, de modo direto ou indireto, foram fundamentais nos momentos iniciais deste blog: a Felippe Ramos que me estimulou e me deu muita força para começar a escrever o blog [apesar de toda minha timidez] e que sempre teve a maior paciência de ler meus posts muitas vezes antes mesmo de postá-los; a Lucas Regan, meu amigo virtual, que apareceu de modo muito especial em momentos difíceis e que me iluminou com sua sabedoria, para que eu me abrisse mais aos meus sentimentos [eu sei que eu te prometi um post sobre algumas coisas e nunca cumpri diretamente, mas esta tem sido uma promessa que venho cumprido à prestação!] e a Carlos Vin Lo, meu amigo lindo que com seu fabuloso blog DPI foi uma divertida inspiração ao meu.

Para finalizar meeeesmo  gostaria de revelar algumas tímidas estatísticas [1 ano; 17 posts; 1696 visualizações; 61 comentários] e acrescentar que assim que entrar de férias, vou explorar meu amigo Fabinho [“cara de pau” hehehe] e fazer algumas melhorías no blog ..

Longe das Nuvens

Eu tinha uns 7, não sei mais se são sonhos ou lembranças: deitada sobre a grama do sítio de meu avô, olhava as nuvens raras sob um céu que parecia desenho animado. Passava horas criando personagens que juntavam-se e desfaziam-se quase que instantaneamente: o cachorrinho virava um leão que engolia o patinho e depois beijava a boca de um sapinho tristonho. Que intimidade tinha aquela garotinha com as nuvens? Porque elas lhe davam autorização para criá-las e descria-las segundo seu gosto e predileção?

Ontem pela manhã mirei o céu e notei que não mais chovia… Ele estava exatamente igualzinho àqueles dias de minha infância: azul-pintura-de-desenho-animado. As nuvens estavam tão belas, raras e prontas à criação como estavam há cerca de quinze anos atrás… Tudo estava tão propício, que, confesso, ousei tentar, depois de anos, criá-las mais uma vez. Não compreendo… Elas simplesmente não se permitiram desenhar… Tentei exaustiva e frustradamente e o máximo que consegui foi fazer um animal de um olho e duas bocas ao qual assemelhei a um gatinho tosco.

As nuvens não são mais as mesmas? Ou…

Hoje, por um motivo especial, recordei das primeiras aulas de Ciência Política com o professor Alvino… Era nosso primeiro contato com a Ciência da Política e nosso professor amado fez questão de arruinar os castelos de cartas de cada um de seus novos alunos; cada um à sua medida, é bem verdade… [eu, certamente, fui fortemente afetada!] Éramos cheios de ideais, de deveres-ser, de a prioris, de princípios políticos morais inabaláveis e ele, de cara, nos apresentou ao Príncipe de Maquiavel [err… não foi fácil…]. Meu mundo, há muito tempo, já não era tão belo como quando eu tinha 7 anos; há muito notara, às vezes da maneira mais dura, que há outras histórias além daquelas desenhadas nas nuvens… Mas, ainda assim, é honesto arrancar-nos de nossos pressupostos se isto não tiver o poder de transformar alguém mais, além de você mesmo?

Já de cara, algumas coisas foram arrancadas brutalmente. As certezas, por exemplo, foram-se para sempre sem retorno… Aos poucos, outras tantas coisas se perderam como num efeito dominó: a ingenuidade foi-se de forma tão abrupta que sequer consigo recordar-me quando a perdi… Ruíram-se também as fórmulas pré-fabricadas de um mundo perfeito [aquelas que a gente constrói com tanta logicidade que só pode se perguntar por que ninguém pensou nisso antes]. Com o passar dos anos, ruíram-se pressupostos, deveres-ser, ideais, ideologias, princípios morais; ruíram-se até os ideais ocidentais de liberdade, igualdade e fraternidade, a crença na efi-ciência, nos utopismos… Ruiu-se tudo, tão facilmente, que sequer consigo enxergar semelhanças entre mim e a garotinha que aos 7, desenhava nuvens… Seu mundo nunca fora lá perfeito, mas ela esforçou-se tanto para construir toda a sua noção de mundo; para educar-se conforme tais princípios…

Construir, desconstruir, destruir, reconstruir…

Muita coisa ruiu, é verdade, outras tantas, entretanto, construíram-se…. Eu me fiz e me desfiz tantas e tantas vezes… tantas idas e vindas: umas idas, sem volta, outras que me levaram apenas ao mesmo ponto de partida. Como poderia ousar pensar que poderia desenhar nas nuvens como antes? Entretanto, a crença no ser humano, a vontade de transformação, a esperança [ainda] não ruíram-se apesar de uma grande batalha interna para mantê-las de pé, quando o ceticismo teima em criar, a cada dia, raízes mais profundas…

Mas, como disse o Philipe Pullma, talvez a questão seja esta: “ninguém tem o direito de viver sem ser chocado”

Matemática que é bom…

[“Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro, as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos rasos e tom panfletário. Matemática que é bom… Esta é a chamada da reportagem da Veja sobre a decisão do governo brasileiro de incluir sociologia e filosofia como disciplina obrigatória nos currículos de ensino médio das escolas públicas e particulares. Simplesmente não consigo ler algo do tipo e não falar nada a respeito]

Este era o início de um post que escrevi sobre uma reportagem da Veja que me chocou; e julguei, por este motivo, que não poderia passar sem resposta… Gastei muito [nem tanto] do meu precioso tempo [nem tão precioso assim…] para pontuar as frases mais esdrúxulas e rebatê-las uma a uma. Ao concluir o penoso e desagradável ofício, dei-me conta de que não vale, absolutamente, à pena fazer nenhum comentário sobre o que se escreve numa revista que sequer leio… “Quem lê a Veja?” [Perguntou o Mino Carta outro dia no auditório da Faculdade de Direito da UFBA] Eu, Tássia Camila, não! Nunca comprei um “exemplar” Veja e, quando ocorre de, ao acaso, lê-la [geralmente através de emails raivosos], qualquer coisa ali escrita não me forma… Nem a mim, nem ao público que gosta de Veja; pois, certamente, concordam com seu conteúdo a priori e só assinam a revista pelo bel prazer de estarem à par de pensamento condizentes com os seus… Resumindo: eu escreveria contra a reportagem para quem? Para uns poucos amigos que lêem meu blog? [Bom, aos meus colegas é que não preciso mesmo rebater o que a revista fala…] Aos leitores da Veja? [duvido que algum, mesmo por acaso, tenha lido meu blog]. De todo modo, a reportagem não foi de todo inútil, pois me fez refletir sobre os rumos da nossa querida educação.

Esta semana li o fantástico livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley; ficção científica que aborda uma sociedade de indivíduos fabricados e condicionados a um convívio social harmônico cujo consumo é o alicerce primeiro. Bem, depois posso até escrever sobre, mas o livro inteiro é uma grande alegoria do nosso mundo e nos faz refletir muito sobre a importância fundamental que a educação exerce sobre o tipo de sociedade que gostaríamos. Longe de querer analisar padrões educativos e blábláblás [deixemos isso aos profissionais], começo avaliando o tipo de educação que EU tive a vida toda.  Enquanto estudante do Ensino médio, tive, no 1° ano, aula de Filosofia e, no 2° ano, aula de Sociologia. Não tenho certeza agora, mas acredito que este tenha sido meu primeiro e único contato com estas duas disciplinas desde que entrei na escola aos 3 anos de idade. Sim, eu tenho 23 anos e há 20 freqüento uma sala de aula. E, talvez seja essa a questão: eu entrei na escola aos 3 anos de idade; e, se isso soa natural aos ouvidos, deve, de fato, haver algo de errado com essa nossa sociedade. Será que é realmente necessário isto que fazemos com as nossas crianças? [às que podem se dar ao luxo de freqüentarem aulas aos 3 anos de idade e às que, aos 3 anos de idade, por incapacidade de ir à aula, vão acompanhar suas mamães ao trabalho?] Puxa, como isso é irônico… No fundo, estes dois tipos de criança têm algo em comum: estão sendo preparadas, desde os 3 anos de idade, às funções do trabalho;  mesmo que um para ser patrão e o outro, empregado.

Além do estranho [porém já naturalizado] fato de levarmos nossas crianças às salas de aula aos 3, o mais complexo, entretanto, é o padrão da educação que nos forma… Achei irônico e engraçado o que a Veja fez no finalzinho de sua chamada: “matemática que é bom…” porque, na verdade, a gente até costuma ouvir esse tipo de coisa: “estudar que é bom, nada!”, mas com relação à matemática não soa absurdo? Matemática é o tipo de coisa que se estuda do 1° ao ultimo dia de aula de nossas vidas: mais ou menos uns 15 anos de matemática; em contrapartida, temos [ou melhor, TEREMOS, pois antes não era nem obrigatório] 1 ano de sociologia e 1 ano de filosofia, sendo que a carga horária de cada uma destas disciplinas representa 1/4 ou 1/6  da carga-horária de matemática [fazendo uma soma bem superficial, teríamos 4 aulas de 50 min por semana x 4 semanas x 10 meses  x 15 anos = 2400hs de matemática contra 1 aula de 50min 1x por semana x 4 semanas x 10 meses x 1 ano = 33,33hs de filosofia ou sociologia. Isto, em número matemáticos representa, aproximadamente, 72x mais matemática que sociologia ou filosofia. Factualmente, se eu não tivesse estudado matemática, não poderia, sequer, fazer estes cálculos aí acima, embora, confesso, não seria capaz de fazer sem o auxílio da calculadora mesmo tendo estudado 72x mais esta disciplina do que aquela que escolhi para seguir como profissão: a sociologia. [puts, como sou incompetente em matemática! Ou… estou com a sensação que fui sacrificada durante 15 anos de minha vida estudando uma coisa que fatalisticamente não tem nada a ver com minha formação profissional]. Bom, então isso que estamos falando aqui de crianças que desde os 3 anos estão sendo preparadas ao mercado de trabalho é falso? Não!!!! Assim como em “Admirável Mundo Novo” estamos falando em condicionamentos. Independente da SUA profissão, a mensagem é sutil, porém, clara…

Durante todos os 20 anos que frequentei salas de aulas, sempre tive a pueril sensação de que existem conhecimentos que são mais úteis à sociedade que outros e, nesta escala, certamente a minha profissão pode ser enquadrada numa escala inferior, já que nossos salários são potencialmente mais baixos do que os verdadeiros cientistas (aqueles que lidam com cálculos e fenômenos físico-químicos, que constroem aviões, foguetes, que descobrem remédios contra doenças, que clonam indivíduos, etc, etc, etc, etc…). O que é o “Cientista Social”? Nós podemos até concordar com a posição de que nossas crianças necessitam de mais formação tecnicista do que formação humanística, mas se assim acreditamos, só pode ser pelo motivo de acreditarmos que as sociedades caminham na direção correta: pautadas na lógica do desenvolvimento tecnológico e do crescimento econômico. Se esta é a sociedade ideal, então calo-me e aceito o sacrifício que fui condicionada. Entretanto, se acreditamos que, mesmo caminhando linearmente rumo ao crescimento econômico as coisas vão cada vez pior, aí sim, me cabe falar: devemos reavaliar os métodos educativos; devemos reavaliar se “matemática que é bom…” ou qualquer outro modelo de educação que prepare os indivíduos a qualquer tipo de cientificismo social.

Só para não dizer que não falei das flores… Adicionarei aqui apenas uma das muitas falas da revista que me chocaram: “Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica”, conta Sílvio Barini, diretor do São Domingos, colégio particular de São Paulo. Bueno! Será que já criaram algum tipo de profissional “desprovido de visão ideológica”? O inquestionável fato de ensinarmos 72x mais matemática que Sociologia ou filosofia é uma opção ideológica e não um método psicopedagogo apropriado. Imagino o pai feliz com o resultado das provas finais: “meu filho ficou em recuperação em filosofia, mas foi muito bem em química e matemática” Lógico que ele tem que ficar feliz, afinal de contas, filosofia não reprova ninguém, mas matemática que é bom…

Link da reportagem aqui

O protagonismo dos teus olhos

Em meu trajeto, cruzo todos os dias por um cartaz qualquer ao qual nunca destinei nada mais que alguns instantes de minha atenção.  Nunca sequer descompassei o passo para observá-lo, mas ainda assim, é impossível passar por ele sem admirá-lo, instantaneamente, como uma bela pintura. Nele estão presentes alguns jovens que jamais recordarei as faces; dentre eles, um rapaz de belo sorriso protagoniza o quadro obscurecendo toda a beleza à sua volta. Sigo caminhando, mas aquela imagem permanece distraindo meus pensamentos por alguns instantes.

Olhe ao redor! Milhares de rostos amorfos; gente que cruzamos todos os dias e que jamais reconheceríamos… Será que alguma delas não foi responsável, em algum momento, por desviar seus pensamentos? Talvez o olhar esteja o tempo todo buscando um referencial, um protagonista para que todas as outras coisas se disponham ao seu redor. São lapsos instantâneos cujos quadros se alteram constantemente; a cada momento, um novo protagonista para cada nova situação. O fato é que, quando menos se espera, lá estamos nós distraindo-nos dos nossos importantes pensamentos para observar uma cena irrelevante qualquer… O fato ocorre; damos-nos conta e desviamos o olhar ao horizonte apenas como pretexto para olharmos para dentro de nós mesmos e remetermo-nos, novamente, aos velhos pensamentos [em que eu estava pensando mesmo? Ah sim… tenho que terminar de ler aquele texto da disciplina, depois eu tenho que…]

Isso dura algum tempo, mas à frente um pouco, me pego novamente observando uma garota de caneta a postos para anotar o telefone do seu conhecido [… aquela camisa parece com uma que eu tenho. Será que eles vão se ligar? De um telefonema, um encontro; de um encontro… que nada, eles estão marcando apenas de fazer o trabalho que devem entregar na quinta; ou então, ela está anotando o nome de um livro que pretende comprar para o namorado e o conhecido nutre por ela um amor secreto; ou, quem sabe, o conhecido não é conhecido, é o amigo confidente gay e está te falando sobre um vídeo que ela não pode perder de ver no youtube. Vai saber? Ela bem que está muito empolgadinha… Mas há tantos motivos que empolgam… Falar em quinta, tenho que terminar aquele livro até quinta senão nunca farei a monografia! Pronto, tá decidido! Quinta, sem falta, só saio da biblioteca quando terminar aquele livro maldito! Duvido que encontre ali algo mais interessante do que já encontrei até agora, mas como não terminá-lo? Na hora da banca vão querer saber justamente a parte que eu não li… como daquela vez…]. Uma coisa leva à outra e, uma distração desvia-lhe novamente o pensar, o pensar desvia o olhar até a próxima distração levá-lo a abandonar o pensamento anterior.

E assim vamos seguindo: distraindo o pensamento com o protagonismo instantâneo da vida alheia. Olhei-o apenas alguns segundos, mas poderia admirá-lo como um telespectador durante horas [desde que permanecesse no anonimato]. Poderia supor sobre sua vida, seus amores, seu cotidiano; perderia horas, se horas houvesse a serem perdidas, é claro! Mas, se não houvesse tanta coisa mais útil a se pensar quando se está simplesmente transitando de um lugar a outro, eu passaria, quem sabe, um pouco mais que alguns segundos admirando-o, mirando seus movimentos, supondo seus pensamentos; até a próxima distração, até perdê-lo de vista… Recordaria seu rosto; mais adiante, um vulto; no fim da tarde, uma vaga lembrança; no final do dia, finalmente, esquecido para sempre! Quantos protagonizaram cenas em meu dia hoje? Dezenas ou até, quem sabe, centenas…  Nunca mais os verei, ou, nossos olhares nunca se cruzarão. Observo-o à distância, ele a observa à distância que observa à distância um outro, que me observa, quem sabe, à distância também… Ou observou algum momento e agora sequer recorda meu rosto.

Assim se segue a vida, de cena em cena, de protagonismo em protagonismo; mas, quem sabe um dia, o telespectador e o protagonista cruzam os olhares? E, se cruzam, recordam-se… E, se recordam-se, não é mais cena, não há mais anonimato… Ela desvia o olhar sem graça, ele nota e também desvia; o ônibus parte e ele ainda a olha novamente, mas ela não quer retribuir o olhar, pois está muito preocupada com a prova do dia seguinte. Um dia se encontrarão na fila do banco, quem sabe, com aquela sensação de que “eu o conheço de algum lugar!” Se despedem sem cumprimentar-se e distraem-se com um outro qualquer que protagonizará seu olhar apenas alguns segundo com o sutil intuito de te  fazer desviar o pensamento daquele estranho conhecido da fila do banco.