O Frankenstein da pós-modernidade

 

Twitter. Na academia, nada ainda se fala sobre o ‘fenômeno’ exceto, talvez, nas faculdades de comunicação, mas a sensação que eu tenho é que nós [os que se ocupam dos debates acadêmicos] sempre estaremos um passo atrás da velocidade com que o mundo da vida vem se transformando. Se alguém ousar me perguntar o que eu, que assisti incrédula a expansão do twitter na internet, penso sobre isso; não hesitarei em dizer que “eu tenho medo!” Não, não é o ‘medo’ da Regina Duarte; não é o medo do desconhecido que, por sinal, não à toa, assusta. Tenho medo que esse processo revolucionário ao qual passamos seja, de algum modo, interrompido.

E, sinceramente, não é um medo sem fundamento… Não estaríamos diante de um novo Frankenstein? Sim, todos se recordam da história: um jovem cientista, que recolhia restos mortais no cemitério da esquina, dá vida a uma criatura ao colocar-lhe um cérebro e disparar algumas descargas elétricas. Mas, para o seu desafeto, algo saiu errado na experiência! O cérebro seria de um bandido de alta periculosidade o que atribuiu à sua criatura uma personalidade não muito amigável. Assim, a criatura foge ao controle do criador e passa a ter vontade própria. Criatura e criador põem-se em oposição por desejarem coisas completamente distintas um do outro. O cientista o queria a seu serviço para consagrar-se na carreira, enquanto o abominável ser queria viver livre e distante dos seres humanos que o encaravam com anormalidade.

Qualquer semelhança é bem mais que mera coincidência: a internet é exatamente o Frankenstein dos nossos dias. Ela surgiu como mais uma dentre tantas promessas típicas do contrato social de uma sociedade democrática capitalista ocidental que aceita o máximo de liberdade possível, desde que seja benéfica ao consumo. E, oras, não é a internet uma ferramenta mais que benéfica ao consumo? Basta um clique para se ter bilhões de bens e serviços ao alcance das mãos [desde, é claro, que o cartão de crédito também esteja]. Consumo de bens e serviços diversos, mas não apenas… Consumo de informação!

Mas, caros amigos, desde o Frankenstein, não existe criação perfeita!

O criador lhe deu um cérebro e este não quis obedecer aos seus originais comandos. Os indivíduos se apropriaram da internet: não como passivos consumistas à espera dos salões científicos onde seríamos apresentados como a cura de todos os males [à saúde do mercado], mas como monstros indomáveis dotados de vontade própria. Sim, saímos da escala de consumidores de informação para nos posicionarmos como produtores e negociadores dela. Qualquer indivíduo em alguns segundos pode criar uma rede interminável de contatos, acessar e produzir informações que circulam, via twitter, a uma velocidade instantânea.

Até aqui, tudo bem, tudo sobre controle! O monstro tinha aprontado algumas, mas nada que pusesse em risco a vida do seu criador! A internet competia com a velha e oligárquica mídia e esta vinha buscando, ainda que sem muito sucesso, se adaptar ao fato de não haver mais o tradicional furo de reportagem ou informação exclusiva e ninguém tocava nas feridas mais profundas… Estas últimas semanas, entretanto, o ‘Estado’ [esta figura emblemática, soberana e intocável], com as bombásticas revelações do Wikileaks, descobriu que havia certas falhas no ‘contrato’: pode-se garantir o máximo de liberdade possível benéfica ao consumo [e deve-se acrescentar], desde que não ponha em risco a autonomia das intenções espúrias do seu criador! E, devo dizer, muito provavelmente as verdades reveladas pelo wilileaks não teriam o mesmo impacto se não existisse o twitter para disseminar viralmente seu conteúdo. O criador se tocou: a criatura quer bem mais que liberdade; a sua personalidade pouco amigável, de repente demonstra desafiar as suas leis.

O que significa ao governo norte-americano, que controla a internet do mundo, se sentir vulnerável à simples circulação de informações? O que significa, ainda, a uma potência detentora das mais avançadas máquinas de destruição em massa, se sentir vulnerável a simples ataques de hackers que não ultrapassam a esfera virtual? Estaria o Victor Frankenstein da nossa história, se sentindo ameaçado por sua própria criatura? E, finalmente, seremos capazes de nos libertarmos do criador sem marcas profundas? Ou melhor, seremos capazes de nos libertarmos? Meu ‘medo’ é que, assim como a criatura do Frankenstein, a internet seja percebida como uma criação danosa à saúde do Estado enquanto potência autônoma, soberana e inquestionável.  Pois, uma vez com sua saúde ameaçada, o criador não hesitará em aniquilar sua criatura.

Vamos falar de gênero?

Dia destes presenciei uma cena inusitada… E sabe, depois do ocorrido, passei a me perguntar sobre o fato de evitarmos o velho debate sobre gênero. [e veja, eu não estou falando daqueles debatezinhos travados em rodas de amigos, em meio a risadinhas, cujo objetivo é competir aptidões e padrões comportamentais (virilidade, altivez, potencialidade x sensibilidade, intuição, docilidade), mas sim debates realmente consistentes e potencialmente transformadores]. Eu, por exemplo, evito! E, tenho que confessar, aquelas velhas piadinhas machistas não me afetam com tanta intensidade como deveria [ainda que afetem cada dia mais…]. Ademais, numa escala que variasse de machista para feminista, não me colocaria no extremo de nenhum destes dois pólos. Ainda assim, posso dizer que sou uma MULHER com “consciência de gênero”, mesmo que isto, na prática, não signifique muito…  De todo modo, toda vez que por algum motivo o meu “feminismo” foi questionado, detive-me a definir-me “anti-machista” talvez como uma forma evasiva de evitar o velho e chato debate de gênero.

Entretanto, minha gente, ainda que evitemos ao máximo, algumas vezes o obvio não pode simplesmente ser ignorado, pois sem que percebamos ele invade abruptamente nosso espaço de conforto de modo tão preciso que não podemos simplesmente fugir mais uma vez sem enfrentá-lo. Foi mais ou menos isso que aconteceu, dia destes, quando eu, na confortável cadeira isolada do ônibus em que estava, compreendi, na vivência, aquilo que a teoria já havia me alertado.  Como sempre acontece quando tenho a oportunidade de pegar um ônibus vazio, entrei no ônibus, paguei a passagem e, depois de uma rápida examinada no “contingente populacional” do veículo, escolhi aquela cadeirinha de idoso isoladinha ao lado da cadeira do motorista. [Eu juro que dou o lugar quando chega um velhinho]. Esta cadeirinha, sem visinhos, na janela e ao lado da saída é, sem dúvidas, meu refúgio. Não que eu seja uma pessoa anti-social; pois eu NÃO sou, mas em toda minha [loooooooonga] história entre ônibus, engarrafamentos e esperas no ponto, nunca encontrei pessoas interessantes a ponto de preferir o assento compartilhado. A cadeirinha isolada, num ônibus vazio, me passa a sensação de que nada que ocorra dentro do ônibus pode me afetar e que todo o tempo que eu permanecer dentro do veículo, posso dedicar apenas aos meus pensamentos.

Talvez eu tenha razão ao me sentir protegida das “externalidades” alheias ou talvez seja apenas uma impressão falsa. De todo modo, a cena inesperada não ocorreu no lado de dentro, mas sim no lado de fora. Enquanto o ônibus chega ao ponto do mercado do peixe, ouço um barulho estrondoso e presencio uma batida aparentemente comum destas “que só podem ser cometidas por mulheres ou por um homem muito, muito bêbado” pensei [íris, não me mate, mas eu não posso controlar estes pensamentos automáticos]. Eu estava “certa” era uma mulher, mas eu também estava errada; foi apenas quando o barulho se repetiu pela segunda, terceira e quarta vez é que pude compreender o que se passava… A mulher em questão não bateu o carro por barbeiragem, ela chorava desesperadamente, tomava distância e atirava o carro contra o poste. O sinal abriu e o ônibus seguiu, mas não sem muita perplexidade de todos que estavam ali dentro. Sabe-se lá por quanto tempo a mulher continuou atirando seu carro contra o poste ainda que houvesse muita gente tentando ajudar. Perplexa, eu também segui naquela cadeirinha isolada, mas foi duro perceber que eu estava cometendo em pensamento aquilo que tantas vezes condenei em discurso.

Bem, mas por que eu estou contando esta historinha que me aconteceu? Por dois motivos: primeiro porque não podemos simplesmente acreditar que existem pautas e posições superadas. Nós mulheres a cada dia conquistamos mais espaço na sociedade e isso dá a falsa ideia de emancipação. Já dizia Bourdieu que a dominação é reproduzida igualmente pelo dominado.  E, mesmo que eu mesma tenha dito esta mesma frase aí acima diversas vezes, não estava remetendo-a diretamente a mim; visualizava como algo que, a mim, estava muito claro e superado.  Já o segundo motivo é mais forte e, apesar de todos os rodeios que fiz para chegar nele, é o que me levou a escrever este post; e, mesmo sabendo que poucos concordarão com meu ponto de vista, vou falar! [risos]. O que está em jogo nestas eleições, sobretudo no segundo turno é, a meu ver, nitidamente um questão de gênero. E eu sei que a partir do momento em que eu escrevo tal coisa, todo mundo vai ligar o pensamento automático para “lá vem aquele papinho chato de novo”. Entretanto, a quem pensou isto eu respondo “tá vendo aí o que eu chamo de forma evasiva de evitar o velho e chato debate de gênero?” A gente nem sabe por que, mas evita, simples assim…  “Nosso país é democrático suficiente para eleger uma PRESIDENTA e isso é uma pauta superada!”, muitos diriam e diriam ainda que a Dilma está concorrendo em pé de igualdade com José Serra, que o que se questiona sobre seu possível mandato não tem nada a ver com o fato de ela ser uma mulher, mas se ela vai ter competência e capacidade de administrar um país como  o Brasil ou se vai ser capacho do Lula. Tá vendo aí gente, não tem nada a ver com gênero! Tá bom, mas eu posso agora argumentar os meus motivos para acreditar nisso? Brigada!

Então, como eu ia dizendo, acredito que algo se perdeu, sobretudo entre o final do primeiro turno e início do segundo, mas que precisa urgentemente ser recuperado… Vejo o tempo todo campanhas difamatórias pautadas num forte discurso moral que não parte apenas da oposição, mas de diversos setores da sociedade. Se por um lado os discursos moralistas passam a fazer parte da campanha do Serra, por outro, qualquer tipo de discussão de gênero, é simplesmente evitada pela campanha de Dilma. Não se fala na exploração feminina, por exemplo, e evita-se todo o tempo qualquer tipo de discurso mais inflamado que envolva direitos da mulher. Aliás, a própria Dilma é uma mulher cheia de características tipicamente masculinas que em nada se assemelha aos velhos clichês da feminilidade. Do lado de lá da campanha, vê-se muita mulher grávida segurando seus bebezinhos saudáveis, vê-se muita mulher independente e dona de si falando que não vai votar na Dilma porque ela é mulher, vê-se muita dona de casa pobre, cheia de filho, dizendo como o Serra é um homem capaz de prover a ela e a sua família todas as necessidades que uma mãe necessita para uma vida digna; e, acima de tudo, vê-se a igreja e sua moral cristã que, de um momento para o outro, passa a valorizar no espaço político um assunto que sequer é de competência do governo federal: o aborto.

Ora meus amigos, o que é isso se não uma forma sutil de retirar do debate explícito aquilo que está socialmente latente em nós? Sim, latente, mas oculto, porque não se pode falar de gênero explicitamente, mas nós não podemos esquecer que a sociedade brasileira é predominantemente composta por aquele homem tradicional que aceitou que sua mulher trabalhasse fora de casa porque não tinha meios de prover os sustentos sozinho, mas não aceita e nem divide as tarefas domésticas; por aquele homem que vê a mulher como objeto de desejo ou por aquelas centenas, dezenas e milhares de mulheres que reproduzem o discurso dominador de que “quem deve mandar é o homem”. Lógico que isto, assim de modo cru não se justifica. [Quase] Ninguém ousa falar: “Eu não voto na Dilma porque ela é mulher” [a minha avó falou…], mas aqui e ali se ouve: “Eu não voto na Dilma porque ela é mulher”, e uma [SÓ] palavrinha muda todo o discurso; assim, não é porque ela é mulher que eu não voto nela, que absurdo! Isso é uma coisa que nem se deveria estar discutindo…. Não tem nada a ver com gênero, mas sim porque a Dilma é contra a vida, porque ela não tem experiência de governo, porque ela é terrorista, porque é autoritária, porque é despreparada, porque não vai conseguir governar sozinha etc, etc, etc.

Agora, eu pergunto, onde, nisso tudo aí, está se debatendo projeto de governo? Será que estamos ligados no pensamento automático que não pode ser traduzido para o discurso livre? Para mim está claro que as forças mais conservadoras do país estão unidas nessa campanha em nome de um discurso moralista que nem de longe pode ser preenchido pelo campo político. E não digo isso por acreditar que a política deve ser afastada da moral porque eu não acredito nisso; digo isto porque todo este debate que vem inflamando o segundo turno afasta o eleitor dos debates verdadeiramente políticos que só podem ser amplamente travados no período eleitoral.

Talvez, simplesmente, nossa sociedade que de modo relativamente satisfatório conseguiu incorporar o discurso [O DISCURSO] da igualdade de gênero em diversos campos da vida social ainda não conseguiu levá-lo para as raízes mais profundas do pensamento… E delas, queridos, [quase] ninguém está livre. Enquanto isso continuamos a evitar estes assuntinhos chatos por um motivo simples e banal: gênero é uma pauta superada! Mas gostaria apenas de fazer uma pergunta: por quanto tempo nos manteremos assentados em nossas convicções sem que tais “externalidades” invadam abruptamente nosso espaço de conforto?  Talvez tempo suficiente até que percebamos que não é fugindo do óbvio nem evitando falar de gênero que conquistaremos uma sociedade menos machista.

FINALIZANDO… É DILMA 13! Ps: e não voto nela só porque ela é mulher!

 

Tiririca e a crise de… de…

Veja o vídeo abaixo e, antes de continuar lendo este post, reflita um pouco sobre o significado disto. Será que atravessamos uma crise de legitimidade ou de representatividade capaz de tornar tal candidatura possível?

Confesso que há muito tempo não me espanto mais com este tipo de coisa no horário eleitoral. Na verdade… Nem sei se algum dia isto me espantou, mas sempre fui daquelas que, bem antes de saber o que é votar, acreditava que a melhor forma de conhecer um candidato era assistindo às suas propostas no horário eleitoral… Graças ao bom Deus e aos meus cinco anos de formação em Ciência Política, esta fase ingênua de minha vida passou, mas, ainda assim, é pedir demais que o horário eleitoral faça jus à nossa [caríssima] democracia? Nada contra o humorista Tiririca, pois mesmo não achando lá muita graça em suas piadas, já me peguei cantando “Florentina de Jesus”. Mas, não haveria uma crise nos papéis? Cabe esclarecer, longe querer especificar o limite de atuação política dos indivíduos, sou completamente a favor que um artista, um músico, um atleta, uma dançarina, um humorista ou um trabalhador explorado possam se candidatar e até se eleger e acho maravilhoso que nosso modelo de democracia permita a inserção destes indivíduos. [tá bom, na verdade não acho maravilhoso, mas aceito]. Entretanto, não deveria haver uma mínima [minimazinha mesmo] politização?

O humorista Tiririca poderia estar propondo uma melhor regulamentação para sua classe de humoristas ou, como Enéas, a criação de bombas atômicas. Não importa exatamente suas propostas, pois aí cabe somente ao eleitor o direito da escolha.  Mas, usar-se unicamente de seu perfil carismático para a não-proposta é, no mínimo, um dissenso. O candidato-humorista/ humorista-candidato não apenas se utiliza do seu poder carismático, como, no momento em que caberia uma maior politização, brinca com os déficits democráticos do nosso sistema. Ao falar explicitamente que se ele for eleito vai ajudar a própria família, ou que “pior que tá num fica” o inteligente humorista está legitimando as velhas estruturas oligárquicas que permeiam nosso falho sistema eleitoral e, ao mesmo tempo, depositando sua candidatura na descrença do eleitor.  Inteligente, porque pode se dar ao luxo de criticar seu próprio eleitor e, ainda assim, garantir sua candidatura [coisa que, muito provavelmente, nenhum outro candidato tenha capacidade de fazer, mas que a ele, um humorista conhecido e carismático, é perfeitamente cabível].

E qual o segredo de Tiririca? Ora meus amigos, muito simples, ao não-propor Tiririca está passando uma linda mensagem: “eu tenho a capacidade de me eleger como uma alternativa à descrença nos demais candidatos”. Tiririca não precisa [e isto é chocante!] de propostas para se eleger. Ele precisa apenas ser aquilo que ele é: um humorista. Mas, neste caso, amigos, o humor é negro, pois a sátira não é com o candidato, mas sim com o eleitor. Não soa contraditório um candidato, disposto a se legitimar via sistema eleitoral, pautar sua candidatura na descrença produzida pelos indivíduos diante de tal sistema?  O péssimo disto tudo é que as pessoas vão se identificar com aquela sátira e, respaldados numa atitude politizada, votarão no Tiririca como uma espécie de protesto à corja de políticos corruptos. Sim, PROTESTO, não ingenuidade política. Pois, ingenuidade política seria votar nas velhas propostas. Votar em não-propostas não é ingênuo; é absurdamente consciente. E não é uma atitude burra ou despolitizada; é, muito provavelmente, uma resposta honesta à insatisfação. Ok… É um protesto e, assim sendo, estou respaldado. Certo? ERRADO!

Sem fugir muito do assunto, vou fazer apenas uma observação sobre protestos: a meu ver, nosso sistema [operacional] eleitoral inviabiliza o protesto via voto. Pois, antes da urna eletrônica, a gente podia escrever na cédula o nome do candidato e, deste modo, as pessoas tinham a liberdade de manifestar indignação. [foi assim que, por exemplo, há muitos anos atrás, um macaco chamado Simão seria eleito se seus votos fossem válidos]. Neste antigo modelo operacional votar em branco representava legitimar o sistema eleitoral, mas não aceitar os candidato; anular o voto, por outro lado, representava deslegitimar o sistema eleitoral. Com a urna eletrônica, entretanto, votar em branco mantém seu significado e anular o voto significa que você não soube digitar os números certos.  Não importa exatamente a intenção; a contagem vai parar no bolso de algum candidato bem votado e você não conseguiu expressar sua indignação. Ou seja: via voto, não dá para deslegitimar o processo eleitoral. A melhor forma de fazer isso é não votar e, por conta disso, não poder tirar documentos nem poder fazer concurso público.

Mas, amigos, o povo é criativo e está sempre buscando uma forma ágil, sutil e sem desprendimento de muita energia para expressar seu inconformismo. Neste caso, a melhor maneira encontrada pela população insatisfeita, foi destinar seu voto aos anti-candidatos: Clodovil, Leocret, Cãozinho dos teclados, e todas estas figuras. Mas, será que tal protesto atinge também seus objetivos? Será que podemos desprender poucas energias como um simples voto e o fazer de forma descomprometida? Se o eleitor aprendeu com as condições operacionais, os partidos também e, não à toa, permitem que indivíduos completamente despolitizados lancem suas candidaturas, pois, com sua grande capacidade de puxar votos, conseguem eleger não apenas a si, como também dois, três ou quatro candidatos que, muito provavelmente, detém todo aquele perfil de atuação política que te fez perder a crença.

Resumindo a história toda, a sensação de votar em Tiririca por mais que reproduza uma sensação de voto de protesto e politizado, é uma falsa sensação. A eleição de Tiririca não é apenas algo plenamente aceitável pelo nosso sistema democrático como também é, na verdade, uma forma de manter as coisas exatamente como são!  E aí, tudo bem, cabe a frase “Pior que tá num fica”. Mas como tá também num tá bom! Então, só para responder às minhas próprias dúvidas, a candidatura de Tiririca, a meu ver, está longe de significar uma crise de legitimidade ou representatividade.  Pode representar, no máximo, uma crise no nosso próprio conceito de esforço mínimo para a transformação. Talvez, o que precisemos mesmo, não é encontrar formas criativas, ágeis, sutis e com pouco desprendimento de energia, mas sim formas efetivas de expressar nosso inconformismo!

Para ver uma brilhante e sensível perspectiva sobre eleições e o sorriso dos candidados, entrem aqui: Um só-riso amarelo

Seria um domingo qualquer…

Dia internacional da preguiça, parece que a melhor coisa a se fazer num domingo de chuva ou sol é mesmo ficar em casa de pernas para o ar. Eu, entretanto, longe de fazer jus ao dia, estava estudando materialismo filosófico em Epícuro e sua influência na dialética marxiana. Mas, meus senhores, eis que surge a “TV” este ente diabólico que não serve para mais nada além de nos fazer protelar as coisas verdadeiramente úteis da vida que deveríamos estar fazendo.

Camila, venha ver correndo!” [meu pai] “Ah não, tou estudando”! [mas a curiosidade…]

Chegando à TV, Gugu exibia o curioso caso de Jocélia: uma criança com uma doença genética raríssima chamada “progéria”, capaz de acelerar o processo de envelhecimento do corpo. A garotinha, que mentalmente tem todas as características de uma criança de sua idade (9 anos),  fisicamente detém todas as características e doenças típicas de uma pessoa de 70 anos.  A doença não tem cura e a estimativa de vida de alguém com progéria não passe dos 16 anos. Se o acaso do seu nascimento já é motivo mais que suficiente para causar ao telespectador enorme dor, a extrema miséria da sua grande família [como a carência de coisas mais que básicas como fogão] é algo que agrava [E MUITO!] esta sensação.

Ainda que o caso da pequena Jocélia tenha me deixado muito mal, a matéria seguinte foi realmente um verdadeiro choque! [Eu não sei por que escolhem os domingos para fazer este tipo de coisa… Domingo já é, por natureza, um dia depressivo mas, se alguém quiser se matar de desgosto do mundo, sugiro que ligue a TV no próximo domingo…]  Um programa do qual não me recordo agora [desses, tipo “globo repórter”], exibiu uma matéria sobre o efeito do crack nos bebês de mulheres viciadas. Simplesmente, além de todas as sequelas irreversíveis da droga sobre os bebês [de deficiências físicas a retardamentos mentais], estes anjinhos já nascem viciados na droga. Não… Você não leu errado… Bebês viciados na substância mais destrutiva que o homem já criou! A criança tem crise de abstinência [é a coisa mais bizarra que eu já vi em minha vida]. Somada a infeliz realidade, tem-se a triste estatística que revela que mais de 80% dos bebês de mães viciadas são abandonados no dia do nascimento com abstinentes e sequelas irreversíveis e de que grande parte destes bebês são soro positivo.

Além do fato de ambos terem sidos exibidos num dia de domingo,  talvez estes dois casos não tenham muitas coisas em comum… Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: estamos  aqui de falando “problemas individuais” [da criança que nasce com uma deformação genética incomum; ou dos bebês filhos de mães viciadas que já nascem condenados à infelicidade] ou de “problemas sociais” [a ausência de condições minimamente dignas para famílias enormes que sobrevivem com ¼ de salário mínimo por mês; ou da ausência do Estado em prover programas redução de danos sobre os efeitos das drogas, campanhas informativas, ou  a polêmica liberalização do aborto]?

Nossa moral [cristã] coletiva nos leva a acreditar que o direito à vida supera tudo. Mas isso para mim é o típico “egoísmo moral”; porque enquanto as Jocélias da vida estão, nos seus dias de domingo, passando muito mais necessidade que a própria fome, eu, Tássia Camila, garotinha de classe média, estou escolhendo entre ler Epicuro e materialismo ou ver TV. É reconfortante termos a bíblia ao nosso favor, para falar que, como Lázaro, aquele que sofre na terra será recompensado no céu; ou, ainda, usar o espiritismo para dizer que aquele bebezinho recém-nascido tem um carma a cumprir e está pagando pelo mal que fez em outras vidas. É… Moralmente é reconfortante! Isso nos faz conseguir ver algo do tipo e voltar aos livros depois, [ou à novela…]

Como? Eu pergunto: como ler Epícuro, que fala do bem estar aqui na terra e não lá no céu, e aceitar que, para além do meu bem-estar não é problema meu? Não, amigos, não são “problemas individuais” se o crack está devastando o mundo… Não é porque estas pessoas são fracas e não é problema (só) da mãe se seu bebê nasceu com sequelas e foi abandonado à própria sorte. [na verdade, nem quero entrar no mérito da questão se a mãe é ou não culpada  pois, para mim, isto é irrelevante…], o que eu quero falar, é que, se estes casos são recorrentes, não podemos vê-los como “problemas individuais”. Será que cabe manter nossa moral cristã do “direito à vida acima de qualquer coisa” inabalada diante de coisas do tipo?

Eu sei que isto é polêmico e talvez eu seja acusada de estar sendo superficial [talvez eu esteja, mesmo, sendo superficial], mas, para mim, o Estado que proíbe esta mãe viciada e soro positivo de cometer um aborto de modo seguro, está sendo criminoso. Será que podemos dizer que esta pequena criança tem direito à vida se ela não é, de fato, uma vida digna? Eu me questionei e continuo me questionando isso… E, talvez, desta vez, o prisma moral não seja nosso melhor aliado. Talvez precisemos compreender que apenas “não aceitar isto” é muito pouco. Talvez tenhamos mesmo que entender, por mais contraditório que possa parecer, que ser menos egoísta, neste caso, é pensar em políticas públicas eficientes e não em soluções que nos parecem, a nós e a nossos padrões de boa vida, satisfatórias em nome do “direito à vida”.

Isto estragou meu feriadão, mas… quer saber? O que é um feriadão perto de uma vida que já nasce estragada? Talvez por isso que estas coisas acontecem aos domingos: para que saibamos que não podemos nos dar ao luxo de um típico domingo de pernas para o ar sem, no mínimo, nos chocarmos com certos “problemas individuais”.

De repente me fez falta o muro…

Quando se trata de política, nada é muito bem definido e qualquer tentativa de definição corre um grande risco de entrar em contradição. Entretanto, uma das raras coisas muito bem definidas na política brasileira costumava ser a dicotomia esquerda x direita. Eu disse “costumava”! Costumava, sobretudo no período conhecido como Guerra Fria em que havia, de um lado, o socialismo soviético e, do outro, o capitalismo ocidental cujos reflexos respingavam em nosso país sob a forma de ditadura militar. Ao centro temos um marco ironicamente bem concreto: o muro de Berlim que dividia, material e simbolicamente, esquerda e direita como faces antagônicas e inconfundíveis. A queda do muro de Berlim foi comemorada pelos quatro cantos do mundo: representou fim e recomeço. Ou melhor, representou transição: fim do socialismo enquanto opção sistêmica e a vitória do capitalismo enquanto modelo globalmente dominante; ou seja, fim das incertezas, mas também fim das possibilidades de escolha.

Nenhum livro terá a capacidade de passar a nós [jovens] o que a queda do muro de Berlim representou aos que viveram os medos e incertezas da Guerra Fria, mas talvez possamos ter uma breve noção quando acompanhamos de modo descomprometido o terror causado por outros tantos muros que permanecem ou surgem a cada novo conflito. Não temos mais o muro de Berlim, mas ainda temos os muros de Israel na Palestina, o muro que separa Mexicanos dos EUA, o muro-passaporte que separa chineses camponeses dos chineses urbanos das metrópoles, os muros-passaportes que separam latinos de europeus e os muros de nossas casas e estabelecimentos que separam materialmente o privado do público, só para citar alguns. É… O mundo comemorou a queda do muro de Berlim, mas será que poderíamos supor quais seriam seus efeitos vinte anos depois? Toda vez que leio na internet sobre a campanha eleitoral para presidente da república confesso que acabo sentindo falta do muro de Berlim… Na verdade, eu não vivi o muro de Berlim e, talvez seja inapropriado sentir falta daquilo que não se conhece, mas se é certo que haviam incertezas com relação ao futuro [se o mundo seria capitalista ou socialista] também é certo que haviam definições: era mais fácil posicionar-se à esquerda ou à direita e não haviam dúvidas com relação aos aliados e inimigos.

Recém completados meus exatos 12 anos de vida, mudei-me para Salvador e, mais que uma mudança, isto representou uma revolução em minha vida. Em tempos de individualismo, talvez seja isto: como não vivi para ver uma revolução comunitária socialista, que sejam individuais as revoluções! Foi durante a [minha] revolução que ouvi falar pela primeira vez em esquerda e direita, ditadura militar e muro de Berlim mesmo sem ter muita noção do que significavam estas palavras. Foi numa dessas “descobertas revolucionárias” que ouvi com espanto meu professor de geografia me dizer que no “mundo adulto” uma das coisas que deveríamos ter muito bem definida em nossa mente era nossa opção entre o socialismo e o capitalismo. Isso foi, sem dúvidas, uma daquelas frases que tiram nossos sonos infantis… Obviamente não sabia dizer quais os motivos da necessidade de se ter algo do tipo tão bem definido, mas supus necessário ter uma resposta caso alguém perguntasse. O socialismo é a melhor opção, pensava eu, após rápida pesquisa aos livros da escola [Google não era popular naquela época, cara pálida!].

[Puts, isso de Google de repente me fez sentir um pouco velha…]

Mas, voltando ao que interessa [interessa? rsrs…], o tempo foi passando e ficou cada vez mais difícil compreender a importância dessas definições uma vez que ninguém se interessava em saber qual minha “opção sistêmica”. Dez anos depois vejo que o meu professor ia na rebarba de um tempo que já passou. Assim, o que era ideologia de vida ou um rito de passagem ao “mundo adulto”, perdeu sentido. Isso não infantilizou as pessoas nem as tornou mais ingênuas, mas o fato é que se consegue transitar entre a esquerda e a direita nesta ou naquela opinião sem medo de cair numa incredulidade político-moral. Atualmente o que se vê é uma inversão: o ato de definir-se socialista, revolucionário, marxista, anti-capitalista é que se torna algo infantilizado e ingênuo.

Neste novo mundo “sem muro” [de Berlim] toda espécie de esquerda saudosista passa a ser considerada realmente esdrúxula e quando encontramos algum “revolucionário” marxista proclamando a revolução socialista, conseguimos achar tão absurdo e “fora de moda” que tendemos à ridicularização. Obviamente não estou falando de “fim da esquerda” porque os movimentos sociais, por exemplo, foram responsáveis por uma grande re-significação dos papéis do que podemos chamar de esquerda; o que parece, entretanto, é que para além dos movimentos, essa re-significação não foi muito bem sentida [sobretudo no campo da política institucional]. A “velha” esquerda que tratava da luta de classes, revolução e patrão-operário passou rapidamente a ser repudiada por indivíduos que, como eu, aceitam todos os diagnósticos do marxismo (apropriação, dominação, luta de classes, etc), mas não aceitam os seu remédios (revolução socialista).

Prefiro acreditar que o que vemos hoje no campo da política institucional é um reflexo deste modelo de sociedade que vê normalidade na contradição mais impensável. Entretanto, consequência ou não das nossas escolhas [ou não escolhas], em fins de mandato de oito anos de governo Lula, é impossível distinguir no rol de candidatos onde está a direita e onde está a esquerda. Se analisarmos as opções programáticas, todos são de esquerda; se observamos o histórico e alianças, todos têm lá seu pezinho (ou mais que isso) na direita. O muro que separava direita de esquerda caiu materialmente em Berlim e eu nunca poderia imaginar que ruiria também simbolicamente em nossas vidas. O muro caiu diluindo ideologias como acontece quando se dilui álcool e gasolina num motor flex: funciona do mesmo jeito. Esta eleição presidencial só representa a constatação do óbvio que eu, particularmente, custei a notar: o governo Lula como a “colher de pau” responsável pela improvável mistura entre esquerda e direita. Haverá aqueles a dizer que muito provavelmente a consequência disto seja um país economicamente estabilizado e internacionalmente mais importante, mas estas conquistas atropelaram ideologias e princípios que eu não estava disposta a atropelar quando votei num programa nacional de esquerda. E a nós eleitores, o que nos resta? Aquela velha conhecida opção no menos pior? Tudo bem, mas enquanto o PT esquece seu passado e abaixa a cabeça aos mandos e desmandos do PMDB e de indivíduos e grupos como Sarney, eu tento me convencer que o menos pior é a Marina Silva, mas aí me recordo que a opção de aliança por “governabilidade” do PV, como mostra a tendência no Rio, é o PSDB e aí sinto muita, muita falta mesmo do muro de Berlim…

Longe das Nuvens

Eu tinha uns 7, não sei mais se são sonhos ou lembranças: deitada sobre a grama do sítio de meu avô, olhava as nuvens raras sob um céu que parecia desenho animado. Passava horas criando personagens que juntavam-se e desfaziam-se quase que instantaneamente: o cachorrinho virava um leão que engolia o patinho e depois beijava a boca de um sapinho tristonho. Que intimidade tinha aquela garotinha com as nuvens? Porque elas lhe davam autorização para criá-las e descria-las segundo seu gosto e predileção?

Ontem pela manhã mirei o céu e notei que não mais chovia… Ele estava exatamente igualzinho àqueles dias de minha infância: azul-pintura-de-desenho-animado. As nuvens estavam tão belas, raras e prontas à criação como estavam há cerca de quinze anos atrás… Tudo estava tão propício, que, confesso, ousei tentar, depois de anos, criá-las mais uma vez. Não compreendo… Elas simplesmente não se permitiram desenhar… Tentei exaustiva e frustradamente e o máximo que consegui foi fazer um animal de um olho e duas bocas ao qual assemelhei a um gatinho tosco.

As nuvens não são mais as mesmas? Ou…

Hoje, por um motivo especial, recordei das primeiras aulas de Ciência Política com o professor Alvino… Era nosso primeiro contato com a Ciência da Política e nosso professor amado fez questão de arruinar os castelos de cartas de cada um de seus novos alunos; cada um à sua medida, é bem verdade… [eu, certamente, fui fortemente afetada!] Éramos cheios de ideais, de deveres-ser, de a prioris, de princípios políticos morais inabaláveis e ele, de cara, nos apresentou ao Príncipe de Maquiavel [err… não foi fácil…]. Meu mundo, há muito tempo, já não era tão belo como quando eu tinha 7 anos; há muito notara, às vezes da maneira mais dura, que há outras histórias além daquelas desenhadas nas nuvens… Mas, ainda assim, é honesto arrancar-nos de nossos pressupostos se isto não tiver o poder de transformar alguém mais, além de você mesmo?

Já de cara, algumas coisas foram arrancadas brutalmente. As certezas, por exemplo, foram-se para sempre sem retorno… Aos poucos, outras tantas coisas se perderam como num efeito dominó: a ingenuidade foi-se de forma tão abrupta que sequer consigo recordar-me quando a perdi… Ruíram-se também as fórmulas pré-fabricadas de um mundo perfeito [aquelas que a gente constrói com tanta logicidade que só pode se perguntar por que ninguém pensou nisso antes]. Com o passar dos anos, ruíram-se pressupostos, deveres-ser, ideais, ideologias, princípios morais; ruíram-se até os ideais ocidentais de liberdade, igualdade e fraternidade, a crença na efi-ciência, nos utopismos… Ruiu-se tudo, tão facilmente, que sequer consigo enxergar semelhanças entre mim e a garotinha que aos 7, desenhava nuvens… Seu mundo nunca fora lá perfeito, mas ela esforçou-se tanto para construir toda a sua noção de mundo; para educar-se conforme tais princípios…

Construir, desconstruir, destruir, reconstruir…

Muita coisa ruiu, é verdade, outras tantas, entretanto, construíram-se…. Eu me fiz e me desfiz tantas e tantas vezes… tantas idas e vindas: umas idas, sem volta, outras que me levaram apenas ao mesmo ponto de partida. Como poderia ousar pensar que poderia desenhar nas nuvens como antes? Entretanto, a crença no ser humano, a vontade de transformação, a esperança [ainda] não ruíram-se apesar de uma grande batalha interna para mantê-las de pé, quando o ceticismo teima em criar, a cada dia, raízes mais profundas…

Mas, como disse o Philipe Pullma, talvez a questão seja esta: “ninguém tem o direito de viver sem ser chocado”

Matemática que é bom…

[“Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro, as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos rasos e tom panfletário. Matemática que é bom… Esta é a chamada da reportagem da Veja sobre a decisão do governo brasileiro de incluir sociologia e filosofia como disciplina obrigatória nos currículos de ensino médio das escolas públicas e particulares. Simplesmente não consigo ler algo do tipo e não falar nada a respeito]

Este era o início de um post que escrevi sobre uma reportagem da Veja que me chocou; e julguei, por este motivo, que não poderia passar sem resposta… Gastei muito [nem tanto] do meu precioso tempo [nem tão precioso assim…] para pontuar as frases mais esdrúxulas e rebatê-las uma a uma. Ao concluir o penoso e desagradável ofício, dei-me conta de que não vale, absolutamente, à pena fazer nenhum comentário sobre o que se escreve numa revista que sequer leio… “Quem lê a Veja?” [Perguntou o Mino Carta outro dia no auditório da Faculdade de Direito da UFBA] Eu, Tássia Camila, não! Nunca comprei um “exemplar” Veja e, quando ocorre de, ao acaso, lê-la [geralmente através de emails raivosos], qualquer coisa ali escrita não me forma… Nem a mim, nem ao público que gosta de Veja; pois, certamente, concordam com seu conteúdo a priori e só assinam a revista pelo bel prazer de estarem à par de pensamento condizentes com os seus… Resumindo: eu escreveria contra a reportagem para quem? Para uns poucos amigos que lêem meu blog? [Bom, aos meus colegas é que não preciso mesmo rebater o que a revista fala…] Aos leitores da Veja? [duvido que algum, mesmo por acaso, tenha lido meu blog]. De todo modo, a reportagem não foi de todo inútil, pois me fez refletir sobre os rumos da nossa querida educação.

Esta semana li o fantástico livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley; ficção científica que aborda uma sociedade de indivíduos fabricados e condicionados a um convívio social harmônico cujo consumo é o alicerce primeiro. Bem, depois posso até escrever sobre, mas o livro inteiro é uma grande alegoria do nosso mundo e nos faz refletir muito sobre a importância fundamental que a educação exerce sobre o tipo de sociedade que gostaríamos. Longe de querer analisar padrões educativos e blábláblás [deixemos isso aos profissionais], começo avaliando o tipo de educação que EU tive a vida toda.  Enquanto estudante do Ensino médio, tive, no 1° ano, aula de Filosofia e, no 2° ano, aula de Sociologia. Não tenho certeza agora, mas acredito que este tenha sido meu primeiro e único contato com estas duas disciplinas desde que entrei na escola aos 3 anos de idade. Sim, eu tenho 23 anos e há 20 freqüento uma sala de aula. E, talvez seja essa a questão: eu entrei na escola aos 3 anos de idade; e, se isso soa natural aos ouvidos, deve, de fato, haver algo de errado com essa nossa sociedade. Será que é realmente necessário isto que fazemos com as nossas crianças? [às que podem se dar ao luxo de freqüentarem aulas aos 3 anos de idade e às que, aos 3 anos de idade, por incapacidade de ir à aula, vão acompanhar suas mamães ao trabalho?] Puxa, como isso é irônico… No fundo, estes dois tipos de criança têm algo em comum: estão sendo preparadas, desde os 3 anos de idade, às funções do trabalho;  mesmo que um para ser patrão e o outro, empregado.

Além do estranho [porém já naturalizado] fato de levarmos nossas crianças às salas de aula aos 3, o mais complexo, entretanto, é o padrão da educação que nos forma… Achei irônico e engraçado o que a Veja fez no finalzinho de sua chamada: “matemática que é bom…” porque, na verdade, a gente até costuma ouvir esse tipo de coisa: “estudar que é bom, nada!”, mas com relação à matemática não soa absurdo? Matemática é o tipo de coisa que se estuda do 1° ao ultimo dia de aula de nossas vidas: mais ou menos uns 15 anos de matemática; em contrapartida, temos [ou melhor, TEREMOS, pois antes não era nem obrigatório] 1 ano de sociologia e 1 ano de filosofia, sendo que a carga horária de cada uma destas disciplinas representa 1/4 ou 1/6  da carga-horária de matemática [fazendo uma soma bem superficial, teríamos 4 aulas de 50 min por semana x 4 semanas x 10 meses  x 15 anos = 2400hs de matemática contra 1 aula de 50min 1x por semana x 4 semanas x 10 meses x 1 ano = 33,33hs de filosofia ou sociologia. Isto, em número matemáticos representa, aproximadamente, 72x mais matemática que sociologia ou filosofia. Factualmente, se eu não tivesse estudado matemática, não poderia, sequer, fazer estes cálculos aí acima, embora, confesso, não seria capaz de fazer sem o auxílio da calculadora mesmo tendo estudado 72x mais esta disciplina do que aquela que escolhi para seguir como profissão: a sociologia. [puts, como sou incompetente em matemática! Ou… estou com a sensação que fui sacrificada durante 15 anos de minha vida estudando uma coisa que fatalisticamente não tem nada a ver com minha formação profissional]. Bom, então isso que estamos falando aqui de crianças que desde os 3 anos estão sendo preparadas ao mercado de trabalho é falso? Não!!!! Assim como em “Admirável Mundo Novo” estamos falando em condicionamentos. Independente da SUA profissão, a mensagem é sutil, porém, clara…

Durante todos os 20 anos que frequentei salas de aulas, sempre tive a pueril sensação de que existem conhecimentos que são mais úteis à sociedade que outros e, nesta escala, certamente a minha profissão pode ser enquadrada numa escala inferior, já que nossos salários são potencialmente mais baixos do que os verdadeiros cientistas (aqueles que lidam com cálculos e fenômenos físico-químicos, que constroem aviões, foguetes, que descobrem remédios contra doenças, que clonam indivíduos, etc, etc, etc, etc…). O que é o “Cientista Social”? Nós podemos até concordar com a posição de que nossas crianças necessitam de mais formação tecnicista do que formação humanística, mas se assim acreditamos, só pode ser pelo motivo de acreditarmos que as sociedades caminham na direção correta: pautadas na lógica do desenvolvimento tecnológico e do crescimento econômico. Se esta é a sociedade ideal, então calo-me e aceito o sacrifício que fui condicionada. Entretanto, se acreditamos que, mesmo caminhando linearmente rumo ao crescimento econômico as coisas vão cada vez pior, aí sim, me cabe falar: devemos reavaliar os métodos educativos; devemos reavaliar se “matemática que é bom…” ou qualquer outro modelo de educação que prepare os indivíduos a qualquer tipo de cientificismo social.

Só para não dizer que não falei das flores… Adicionarei aqui apenas uma das muitas falas da revista que me chocaram: “Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica”, conta Sílvio Barini, diretor do São Domingos, colégio particular de São Paulo. Bueno! Será que já criaram algum tipo de profissional “desprovido de visão ideológica”? O inquestionável fato de ensinarmos 72x mais matemática que Sociologia ou filosofia é uma opção ideológica e não um método psicopedagogo apropriado. Imagino o pai feliz com o resultado das provas finais: “meu filho ficou em recuperação em filosofia, mas foi muito bem em química e matemática” Lógico que ele tem que ficar feliz, afinal de contas, filosofia não reprova ninguém, mas matemática que é bom…

Link da reportagem aqui