O Frankenstein da pós-modernidade

 

Twitter. Na academia, nada ainda se fala sobre o ‘fenômeno’ exceto, talvez, nas faculdades de comunicação, mas a sensação que eu tenho é que nós [os que se ocupam dos debates acadêmicos] sempre estaremos um passo atrás da velocidade com que o mundo da vida vem se transformando. Se alguém ousar me perguntar o que eu, que assisti incrédula a expansão do twitter na internet, penso sobre isso; não hesitarei em dizer que “eu tenho medo!” Não, não é o ‘medo’ da Regina Duarte; não é o medo do desconhecido que, por sinal, não à toa, assusta. Tenho medo que esse processo revolucionário ao qual passamos seja, de algum modo, interrompido.

E, sinceramente, não é um medo sem fundamento… Não estaríamos diante de um novo Frankenstein? Sim, todos se recordam da história: um jovem cientista, que recolhia restos mortais no cemitério da esquina, dá vida a uma criatura ao colocar-lhe um cérebro e disparar algumas descargas elétricas. Mas, para o seu desafeto, algo saiu errado na experiência! O cérebro seria de um bandido de alta periculosidade o que atribuiu à sua criatura uma personalidade não muito amigável. Assim, a criatura foge ao controle do criador e passa a ter vontade própria. Criatura e criador põem-se em oposição por desejarem coisas completamente distintas um do outro. O cientista o queria a seu serviço para consagrar-se na carreira, enquanto o abominável ser queria viver livre e distante dos seres humanos que o encaravam com anormalidade.

Qualquer semelhança é bem mais que mera coincidência: a internet é exatamente o Frankenstein dos nossos dias. Ela surgiu como mais uma dentre tantas promessas típicas do contrato social de uma sociedade democrática capitalista ocidental que aceita o máximo de liberdade possível, desde que seja benéfica ao consumo. E, oras, não é a internet uma ferramenta mais que benéfica ao consumo? Basta um clique para se ter bilhões de bens e serviços ao alcance das mãos [desde, é claro, que o cartão de crédito também esteja]. Consumo de bens e serviços diversos, mas não apenas… Consumo de informação!

Mas, caros amigos, desde o Frankenstein, não existe criação perfeita!

O criador lhe deu um cérebro e este não quis obedecer aos seus originais comandos. Os indivíduos se apropriaram da internet: não como passivos consumistas à espera dos salões científicos onde seríamos apresentados como a cura de todos os males [à saúde do mercado], mas como monstros indomáveis dotados de vontade própria. Sim, saímos da escala de consumidores de informação para nos posicionarmos como produtores e negociadores dela. Qualquer indivíduo em alguns segundos pode criar uma rede interminável de contatos, acessar e produzir informações que circulam, via twitter, a uma velocidade instantânea.

Até aqui, tudo bem, tudo sobre controle! O monstro tinha aprontado algumas, mas nada que pusesse em risco a vida do seu criador! A internet competia com a velha e oligárquica mídia e esta vinha buscando, ainda que sem muito sucesso, se adaptar ao fato de não haver mais o tradicional furo de reportagem ou informação exclusiva e ninguém tocava nas feridas mais profundas… Estas últimas semanas, entretanto, o ‘Estado’ [esta figura emblemática, soberana e intocável], com as bombásticas revelações do Wikileaks, descobriu que havia certas falhas no ‘contrato’: pode-se garantir o máximo de liberdade possível benéfica ao consumo [e deve-se acrescentar], desde que não ponha em risco a autonomia das intenções espúrias do seu criador! E, devo dizer, muito provavelmente as verdades reveladas pelo wilileaks não teriam o mesmo impacto se não existisse o twitter para disseminar viralmente seu conteúdo. O criador se tocou: a criatura quer bem mais que liberdade; a sua personalidade pouco amigável, de repente demonstra desafiar as suas leis.

O que significa ao governo norte-americano, que controla a internet do mundo, se sentir vulnerável à simples circulação de informações? O que significa, ainda, a uma potência detentora das mais avançadas máquinas de destruição em massa, se sentir vulnerável a simples ataques de hackers que não ultrapassam a esfera virtual? Estaria o Victor Frankenstein da nossa história, se sentindo ameaçado por sua própria criatura? E, finalmente, seremos capazes de nos libertarmos do criador sem marcas profundas? Ou melhor, seremos capazes de nos libertarmos? Meu ‘medo’ é que, assim como a criatura do Frankenstein, a internet seja percebida como uma criação danosa à saúde do Estado enquanto potência autônoma, soberana e inquestionável.  Pois, uma vez com sua saúde ameaçada, o criador não hesitará em aniquilar sua criatura.

Natal com os sogros…

Hoje, 1° de Dezembro, dia muito especial, pois é o início do mês mais legal do ano… Tem Natal, tem ano novo, tem comidas gostosas, tem queijo de cuia que eu adoro e tem as clássicas lembranças natalinas junto à família! Sim, Natal é o típico momento de recordar e, por este motivo, hoje acordei toda serelepe recordando dos momentos mais inesquecíveis dos Dezembros passados. Em meio a preciosas recordações, recordei de uma não tão preciosa assim…

Gente, vou contar, que situação mais ridícula! Estava no supermercado com meu namorado, minha cunhada, minha sogra, meu sogro; enfim… Com a família toda! Era véspera de Natal e o supermercado estava para fechar; então todos retardatários corriam para levar aqueles apetrechos básicos da ceia antes que fosse tarde demais. O supermercado estava super, super cheio, pois, ao que parece, todos adoram deixar as coisas para o ultimo momento…

Pois bem, quando estávamos bem na sessão mais procurada: a do peru de natal, eis que a luz se apaga num completo breu! Vocês conseguem imaginar o que é se encontrar completamente às escuras num supermercado lotado em plena véspera do natal? Eu imaginei que uma tragédia aconteceria! Imaginei que todos correriam com seus perus nas mãos a fim de garantir a ceia, imaginei pessoas correndo e gritando desesperadas com medo de perder o natal, imaginei o caos, a completa barbárie…

O que eu acho mais interessante no ser humano é grande capacidade que nós temos de racionalizar em momentos de crise… Mesmo que, em ultima instância, na hora do desespero, parecemos ter atitudes irracionais, essas atitudes são racionalmente calculadas para garantir o auto-controle necessário à sobrevivência da raça humana. Assim sendo, agindo em plena racionalidade e de acordo com as providencias possível em momentos de crise, fechei os olhos e dei um estrondoso e agudo grito de desespero.

– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

Entretanto, para meu azar, ao abrir os olhos, me dei conta que a luz já havia voltado e que eu fora a única pessoa em todo o supermercado a entrar em crise… Como as pessoas não puderam compreender aquele delicado momento essencial à sobrevivência da espécie? Sogro, sogra, cunhada, cunhado, namorado, padeiro, funcionários, clientes e perus… A cena se congela e, naquele rápido instante, o supermercado inteiro me olhou com olhar de condenação como se eu fosse alguma espécie de desequilibrada, só porque eu permaneci gritando alguns segundos após a luz ter voltado…

É… Assim foi o meu primeiro Natal com os sogros… E ultimo, diga-se de passagem!

 

Não se fazem mais Clark Gables como antigamente…

 

Tom Cruise. Eis meu modelo universal de homem-perfeição… E os gentlements de plantão podem até discordar de minha opinião, mas eu duvido que as ladys o façam… Como comparar qualquer mortal a um verdadeiro herói capaz de realizar missões impossíveis? A meu ver, há muito tempo o ator Tom Cruise se tornou indissociável dos seus personagens. Tanto, e a tal ponto, que vê-lo como um “homem real” se tornou uma missão impossível! Obviamente, seria um crime da minha parte fazer referência aos seus filmes de ação sem sequer mencionar filmes maravilhoso como “Nascido em 4 de julho”, “Vanilla Sky” ou “de olhos bem fechados”. Entretanto, ninguém pode negar que o ator é conhecido, mesmo, pelos filmes em que salva o mundo sem perder o charme.

Quanto aos rapazes, não sei, mas suponho que qualquer garota que saia do cinema depois de tanta demonstração de virilidade e altivez se torne uma pessoa um pouquinho mais decepcionada com os homens comuns pois, ainda que não sejam capazes de realizar mais do que as obrigações rotineiras, eles não poderiam ser encantadores, inteligentes, apaixonados, românticos, cavalheiros, sensíveis e perfeitos como todo bom galã de Hollywood? Claro que o galã não é apenas tudo isso que falei aí acima [que já é coisa demais!]; ele ainda precisa ser másculo, altivo, viril, sublime, bem-sucedido, impossível e, tchan tchan, tchan tchan… HERÓI. Ah, sim, este detalhe não pode faltar! Ele tem, obrigatoriamente, que salvar a donzela, o gatinho em cima da árvore e, de quebra, o mundo!

Eu não sei quando é que as coisas começaram a mudar [vai ver o Rambo, o James Bond e o Super-Man tenham algo a ver com isso], mas toda vez que vejo um filme das décadas de 30, 40 e 50 fico delirando de paixão pelos “homens de época”! Eles em nada se assemelham aos galãs da atualidade… São muito mais carnais, palpáveis, possíveis que os nossos… E posso estar redondamente enganada, mas as “donzelas”, por sua vez, também me pareciam muito mais altivas, mais donas de si, mais dominadoras que as de hoje… Não é que eu esteja querendo generalizar, mesmo porque o que chega do cinema antigo à nossa mesa é sempre o clássico… Mas, se este modelo de galã um dia foi capaz de atrair ao cinema, por que hoje seria diferente? Ainda que muita coisa tenha mudado nestas décadas, o galã de hoje é uma resposta a quê?

Hoje, depois de muito tempo sem ver um clássico antigo, assisti The Hucksters (Mercador de Ilusões), de 1947, estrelado pelo maravilhoso Clark Gable. E, como sempre acontece quando vejo um clássico, depois de vê-lo, tive vontade de ter nascido nesta “época dos homens reais”. Quer dizer… dos “homens reais” não, dos “homens possíveis”. O galã de 30 a 50 não precisava ser necessariamente lindo como o de hoje… [e Clark Gable está longe de ser enquadrado como o modelo universal de homem-perfeição]. Ele também não precisava salvar o mundo e, na verdade, ele nem precisava ser o poço da honestidade ou aquele bem sucedido. Ele podia não ser um “homem real”, mas certamente era um “homem possível”. Aquele que, com um pouquinho de esforço e um sex-appeal natural, pode transformar qualquer carinha da esquina num verdadeiro Gene Kelly da pós-modernidade! [risos…].

Tá bom, tá bom… Não é para tanto… Digamos apenas que  os homens de hoje podem, pelo menos, tentar aprender um pouquinho mais com os “homens de época” afinal, nós mulheres não somos tão exigentes assim…

Voltando… O que não pode escapar à vista, é que algo [ou muita coisa] entre 30 e hoje aconteceu para que o conceito de galã mudasse tanto a ponto de torná-los tão super-homens. Talvez o galã de hoje esteja muito mais preocupado em agradar ao homem comum do que à mulher e, para isso, estar sempre acima do padrão da normalidade. So… Enche-se o cinema de super agentes da CIA cuja beleza e o comportamento tipo-ideal-homem-perfeição-pós-moderno são elementos agregadores para agradar também às senhoritas que, na maioria das vezes, vão ao cinema para ver um filme do tipo por insistência do namorado. Entretanto, Se tudo está tão obviamente diferente, não podemos esquecer que cinema de 1930, por seu lado, era aquele que sofria uma verdadeira revolução: a transição do cinema mudo para o falado; e, neste sentido, pode ser meio esdrúxulo fazer qualquer tentativa de aproximação dos dias de hoje com um cinema que estava aprendendo a engatinhar. entretanto, toda vez que vejo os filmes de sucesso do passado, é impossível não me perguntar quando foi que a criatividade e a simplicidade passou a ceder espaço para as super-tramas e seus super-efeitos.

Quanto mais nos afastamos de 30, mais saudosa fico… [e olha que eu nasci no final da década de 1980]. Me faz falta a simplicidade, o glamour, e, sobretudo, me faz falta o galã. Aquele que era cheio de defeitos e ações irracionais; aquele que nem sempre era tão bem intencionado mas que conseguia se esquivar das armadilhas do caminho não pelos seus dons especiais, mas pela sagacidade e cinismo. É eu sinto falta do “homem possível” que, ainda que por vezes agressivo e capaz de magoar com palavras sua amada, quando estava ao seu lado, tudo parecia ser superável. No final das contas, apesar de todos os defeitos e tropeços, o que era necessário a um final feliz? Se me perguntas, eu respondo: para que mais que um pedido sincero de desculpas e as velhas juras de amor eterno na livre tradução do ardente e, ao mesmo tempo, inocente beijo? Nada de explosões, nada de medalhas honrosas por conquistas espetaculares… Nada disso! A única explosão capaz de ser percebida era a dos corpos desejosos; e, respondam-me, há conquista mais espetacular que a do ente amado? Aos amantes dos efeitos especiais eu pergunto: que necessidade há de fazê-los aliados? Um por-do-sol ao fundo e uma doce melodia não são efeitos mais que suficientes para esmorecer qualquer coração endurecido? Sim, sim, não há quem negue: o “homem de época” era realmente irresistível!

E, se me permitem um trocadilho ridículo:

Toms Cruises que me perdoem, mas Clark Gable é fundamental!”
E agora, um presentinho para quem não se importa de ver o final de um filme antes de assistí-lo:

Vamos falar de gênero?

Dia destes presenciei uma cena inusitada… E sabe, depois do ocorrido, passei a me perguntar sobre o fato de evitarmos o velho debate sobre gênero. [e veja, eu não estou falando daqueles debatezinhos travados em rodas de amigos, em meio a risadinhas, cujo objetivo é competir aptidões e padrões comportamentais (virilidade, altivez, potencialidade x sensibilidade, intuição, docilidade), mas sim debates realmente consistentes e potencialmente transformadores]. Eu, por exemplo, evito! E, tenho que confessar, aquelas velhas piadinhas machistas não me afetam com tanta intensidade como deveria [ainda que afetem cada dia mais…]. Ademais, numa escala que variasse de machista para feminista, não me colocaria no extremo de nenhum destes dois pólos. Ainda assim, posso dizer que sou uma MULHER com “consciência de gênero”, mesmo que isto, na prática, não signifique muito…  De todo modo, toda vez que por algum motivo o meu “feminismo” foi questionado, detive-me a definir-me “anti-machista” talvez como uma forma evasiva de evitar o velho e chato debate de gênero.

Entretanto, minha gente, ainda que evitemos ao máximo, algumas vezes o obvio não pode simplesmente ser ignorado, pois sem que percebamos ele invade abruptamente nosso espaço de conforto de modo tão preciso que não podemos simplesmente fugir mais uma vez sem enfrentá-lo. Foi mais ou menos isso que aconteceu, dia destes, quando eu, na confortável cadeira isolada do ônibus em que estava, compreendi, na vivência, aquilo que a teoria já havia me alertado.  Como sempre acontece quando tenho a oportunidade de pegar um ônibus vazio, entrei no ônibus, paguei a passagem e, depois de uma rápida examinada no “contingente populacional” do veículo, escolhi aquela cadeirinha de idoso isoladinha ao lado da cadeira do motorista. [Eu juro que dou o lugar quando chega um velhinho]. Esta cadeirinha, sem visinhos, na janela e ao lado da saída é, sem dúvidas, meu refúgio. Não que eu seja uma pessoa anti-social; pois eu NÃO sou, mas em toda minha [loooooooonga] história entre ônibus, engarrafamentos e esperas no ponto, nunca encontrei pessoas interessantes a ponto de preferir o assento compartilhado. A cadeirinha isolada, num ônibus vazio, me passa a sensação de que nada que ocorra dentro do ônibus pode me afetar e que todo o tempo que eu permanecer dentro do veículo, posso dedicar apenas aos meus pensamentos.

Talvez eu tenha razão ao me sentir protegida das “externalidades” alheias ou talvez seja apenas uma impressão falsa. De todo modo, a cena inesperada não ocorreu no lado de dentro, mas sim no lado de fora. Enquanto o ônibus chega ao ponto do mercado do peixe, ouço um barulho estrondoso e presencio uma batida aparentemente comum destas “que só podem ser cometidas por mulheres ou por um homem muito, muito bêbado” pensei [íris, não me mate, mas eu não posso controlar estes pensamentos automáticos]. Eu estava “certa” era uma mulher, mas eu também estava errada; foi apenas quando o barulho se repetiu pela segunda, terceira e quarta vez é que pude compreender o que se passava… A mulher em questão não bateu o carro por barbeiragem, ela chorava desesperadamente, tomava distância e atirava o carro contra o poste. O sinal abriu e o ônibus seguiu, mas não sem muita perplexidade de todos que estavam ali dentro. Sabe-se lá por quanto tempo a mulher continuou atirando seu carro contra o poste ainda que houvesse muita gente tentando ajudar. Perplexa, eu também segui naquela cadeirinha isolada, mas foi duro perceber que eu estava cometendo em pensamento aquilo que tantas vezes condenei em discurso.

Bem, mas por que eu estou contando esta historinha que me aconteceu? Por dois motivos: primeiro porque não podemos simplesmente acreditar que existem pautas e posições superadas. Nós mulheres a cada dia conquistamos mais espaço na sociedade e isso dá a falsa ideia de emancipação. Já dizia Bourdieu que a dominação é reproduzida igualmente pelo dominado.  E, mesmo que eu mesma tenha dito esta mesma frase aí acima diversas vezes, não estava remetendo-a diretamente a mim; visualizava como algo que, a mim, estava muito claro e superado.  Já o segundo motivo é mais forte e, apesar de todos os rodeios que fiz para chegar nele, é o que me levou a escrever este post; e, mesmo sabendo que poucos concordarão com meu ponto de vista, vou falar! [risos]. O que está em jogo nestas eleições, sobretudo no segundo turno é, a meu ver, nitidamente um questão de gênero. E eu sei que a partir do momento em que eu escrevo tal coisa, todo mundo vai ligar o pensamento automático para “lá vem aquele papinho chato de novo”. Entretanto, a quem pensou isto eu respondo “tá vendo aí o que eu chamo de forma evasiva de evitar o velho e chato debate de gênero?” A gente nem sabe por que, mas evita, simples assim…  “Nosso país é democrático suficiente para eleger uma PRESIDENTA e isso é uma pauta superada!”, muitos diriam e diriam ainda que a Dilma está concorrendo em pé de igualdade com José Serra, que o que se questiona sobre seu possível mandato não tem nada a ver com o fato de ela ser uma mulher, mas se ela vai ter competência e capacidade de administrar um país como  o Brasil ou se vai ser capacho do Lula. Tá vendo aí gente, não tem nada a ver com gênero! Tá bom, mas eu posso agora argumentar os meus motivos para acreditar nisso? Brigada!

Então, como eu ia dizendo, acredito que algo se perdeu, sobretudo entre o final do primeiro turno e início do segundo, mas que precisa urgentemente ser recuperado… Vejo o tempo todo campanhas difamatórias pautadas num forte discurso moral que não parte apenas da oposição, mas de diversos setores da sociedade. Se por um lado os discursos moralistas passam a fazer parte da campanha do Serra, por outro, qualquer tipo de discussão de gênero, é simplesmente evitada pela campanha de Dilma. Não se fala na exploração feminina, por exemplo, e evita-se todo o tempo qualquer tipo de discurso mais inflamado que envolva direitos da mulher. Aliás, a própria Dilma é uma mulher cheia de características tipicamente masculinas que em nada se assemelha aos velhos clichês da feminilidade. Do lado de lá da campanha, vê-se muita mulher grávida segurando seus bebezinhos saudáveis, vê-se muita mulher independente e dona de si falando que não vai votar na Dilma porque ela é mulher, vê-se muita dona de casa pobre, cheia de filho, dizendo como o Serra é um homem capaz de prover a ela e a sua família todas as necessidades que uma mãe necessita para uma vida digna; e, acima de tudo, vê-se a igreja e sua moral cristã que, de um momento para o outro, passa a valorizar no espaço político um assunto que sequer é de competência do governo federal: o aborto.

Ora meus amigos, o que é isso se não uma forma sutil de retirar do debate explícito aquilo que está socialmente latente em nós? Sim, latente, mas oculto, porque não se pode falar de gênero explicitamente, mas nós não podemos esquecer que a sociedade brasileira é predominantemente composta por aquele homem tradicional que aceitou que sua mulher trabalhasse fora de casa porque não tinha meios de prover os sustentos sozinho, mas não aceita e nem divide as tarefas domésticas; por aquele homem que vê a mulher como objeto de desejo ou por aquelas centenas, dezenas e milhares de mulheres que reproduzem o discurso dominador de que “quem deve mandar é o homem”. Lógico que isto, assim de modo cru não se justifica. [Quase] Ninguém ousa falar: “Eu não voto na Dilma porque ela é mulher” [a minha avó falou…], mas aqui e ali se ouve: “Eu não voto na Dilma porque ela é mulher”, e uma [SÓ] palavrinha muda todo o discurso; assim, não é porque ela é mulher que eu não voto nela, que absurdo! Isso é uma coisa que nem se deveria estar discutindo…. Não tem nada a ver com gênero, mas sim porque a Dilma é contra a vida, porque ela não tem experiência de governo, porque ela é terrorista, porque é autoritária, porque é despreparada, porque não vai conseguir governar sozinha etc, etc, etc.

Agora, eu pergunto, onde, nisso tudo aí, está se debatendo projeto de governo? Será que estamos ligados no pensamento automático que não pode ser traduzido para o discurso livre? Para mim está claro que as forças mais conservadoras do país estão unidas nessa campanha em nome de um discurso moralista que nem de longe pode ser preenchido pelo campo político. E não digo isso por acreditar que a política deve ser afastada da moral porque eu não acredito nisso; digo isto porque todo este debate que vem inflamando o segundo turno afasta o eleitor dos debates verdadeiramente políticos que só podem ser amplamente travados no período eleitoral.

Talvez, simplesmente, nossa sociedade que de modo relativamente satisfatório conseguiu incorporar o discurso [O DISCURSO] da igualdade de gênero em diversos campos da vida social ainda não conseguiu levá-lo para as raízes mais profundas do pensamento… E delas, queridos, [quase] ninguém está livre. Enquanto isso continuamos a evitar estes assuntinhos chatos por um motivo simples e banal: gênero é uma pauta superada! Mas gostaria apenas de fazer uma pergunta: por quanto tempo nos manteremos assentados em nossas convicções sem que tais “externalidades” invadam abruptamente nosso espaço de conforto?  Talvez tempo suficiente até que percebamos que não é fugindo do óbvio nem evitando falar de gênero que conquistaremos uma sociedade menos machista.

FINALIZANDO… É DILMA 13! Ps: e não voto nela só porque ela é mulher!

 

Tiririca e a crise de… de…

Veja o vídeo abaixo e, antes de continuar lendo este post, reflita um pouco sobre o significado disto. Será que atravessamos uma crise de legitimidade ou de representatividade capaz de tornar tal candidatura possível?

Confesso que há muito tempo não me espanto mais com este tipo de coisa no horário eleitoral. Na verdade… Nem sei se algum dia isto me espantou, mas sempre fui daquelas que, bem antes de saber o que é votar, acreditava que a melhor forma de conhecer um candidato era assistindo às suas propostas no horário eleitoral… Graças ao bom Deus e aos meus cinco anos de formação em Ciência Política, esta fase ingênua de minha vida passou, mas, ainda assim, é pedir demais que o horário eleitoral faça jus à nossa [caríssima] democracia? Nada contra o humorista Tiririca, pois mesmo não achando lá muita graça em suas piadas, já me peguei cantando “Florentina de Jesus”. Mas, não haveria uma crise nos papéis? Cabe esclarecer, longe querer especificar o limite de atuação política dos indivíduos, sou completamente a favor que um artista, um músico, um atleta, uma dançarina, um humorista ou um trabalhador explorado possam se candidatar e até se eleger e acho maravilhoso que nosso modelo de democracia permita a inserção destes indivíduos. [tá bom, na verdade não acho maravilhoso, mas aceito]. Entretanto, não deveria haver uma mínima [minimazinha mesmo] politização?

O humorista Tiririca poderia estar propondo uma melhor regulamentação para sua classe de humoristas ou, como Enéas, a criação de bombas atômicas. Não importa exatamente suas propostas, pois aí cabe somente ao eleitor o direito da escolha.  Mas, usar-se unicamente de seu perfil carismático para a não-proposta é, no mínimo, um dissenso. O candidato-humorista/ humorista-candidato não apenas se utiliza do seu poder carismático, como, no momento em que caberia uma maior politização, brinca com os déficits democráticos do nosso sistema. Ao falar explicitamente que se ele for eleito vai ajudar a própria família, ou que “pior que tá num fica” o inteligente humorista está legitimando as velhas estruturas oligárquicas que permeiam nosso falho sistema eleitoral e, ao mesmo tempo, depositando sua candidatura na descrença do eleitor.  Inteligente, porque pode se dar ao luxo de criticar seu próprio eleitor e, ainda assim, garantir sua candidatura [coisa que, muito provavelmente, nenhum outro candidato tenha capacidade de fazer, mas que a ele, um humorista conhecido e carismático, é perfeitamente cabível].

E qual o segredo de Tiririca? Ora meus amigos, muito simples, ao não-propor Tiririca está passando uma linda mensagem: “eu tenho a capacidade de me eleger como uma alternativa à descrença nos demais candidatos”. Tiririca não precisa [e isto é chocante!] de propostas para se eleger. Ele precisa apenas ser aquilo que ele é: um humorista. Mas, neste caso, amigos, o humor é negro, pois a sátira não é com o candidato, mas sim com o eleitor. Não soa contraditório um candidato, disposto a se legitimar via sistema eleitoral, pautar sua candidatura na descrença produzida pelos indivíduos diante de tal sistema?  O péssimo disto tudo é que as pessoas vão se identificar com aquela sátira e, respaldados numa atitude politizada, votarão no Tiririca como uma espécie de protesto à corja de políticos corruptos. Sim, PROTESTO, não ingenuidade política. Pois, ingenuidade política seria votar nas velhas propostas. Votar em não-propostas não é ingênuo; é absurdamente consciente. E não é uma atitude burra ou despolitizada; é, muito provavelmente, uma resposta honesta à insatisfação. Ok… É um protesto e, assim sendo, estou respaldado. Certo? ERRADO!

Sem fugir muito do assunto, vou fazer apenas uma observação sobre protestos: a meu ver, nosso sistema [operacional] eleitoral inviabiliza o protesto via voto. Pois, antes da urna eletrônica, a gente podia escrever na cédula o nome do candidato e, deste modo, as pessoas tinham a liberdade de manifestar indignação. [foi assim que, por exemplo, há muitos anos atrás, um macaco chamado Simão seria eleito se seus votos fossem válidos]. Neste antigo modelo operacional votar em branco representava legitimar o sistema eleitoral, mas não aceitar os candidato; anular o voto, por outro lado, representava deslegitimar o sistema eleitoral. Com a urna eletrônica, entretanto, votar em branco mantém seu significado e anular o voto significa que você não soube digitar os números certos.  Não importa exatamente a intenção; a contagem vai parar no bolso de algum candidato bem votado e você não conseguiu expressar sua indignação. Ou seja: via voto, não dá para deslegitimar o processo eleitoral. A melhor forma de fazer isso é não votar e, por conta disso, não poder tirar documentos nem poder fazer concurso público.

Mas, amigos, o povo é criativo e está sempre buscando uma forma ágil, sutil e sem desprendimento de muita energia para expressar seu inconformismo. Neste caso, a melhor maneira encontrada pela população insatisfeita, foi destinar seu voto aos anti-candidatos: Clodovil, Leocret, Cãozinho dos teclados, e todas estas figuras. Mas, será que tal protesto atinge também seus objetivos? Será que podemos desprender poucas energias como um simples voto e o fazer de forma descomprometida? Se o eleitor aprendeu com as condições operacionais, os partidos também e, não à toa, permitem que indivíduos completamente despolitizados lancem suas candidaturas, pois, com sua grande capacidade de puxar votos, conseguem eleger não apenas a si, como também dois, três ou quatro candidatos que, muito provavelmente, detém todo aquele perfil de atuação política que te fez perder a crença.

Resumindo a história toda, a sensação de votar em Tiririca por mais que reproduza uma sensação de voto de protesto e politizado, é uma falsa sensação. A eleição de Tiririca não é apenas algo plenamente aceitável pelo nosso sistema democrático como também é, na verdade, uma forma de manter as coisas exatamente como são!  E aí, tudo bem, cabe a frase “Pior que tá num fica”. Mas como tá também num tá bom! Então, só para responder às minhas próprias dúvidas, a candidatura de Tiririca, a meu ver, está longe de significar uma crise de legitimidade ou representatividade.  Pode representar, no máximo, uma crise no nosso próprio conceito de esforço mínimo para a transformação. Talvez, o que precisemos mesmo, não é encontrar formas criativas, ágeis, sutis e com pouco desprendimento de energia, mas sim formas efetivas de expressar nosso inconformismo!

Para ver uma brilhante e sensível perspectiva sobre eleições e o sorriso dos candidados, entrem aqui: Um só-riso amarelo

Orkut e seus bônus

Hoje recebi um recado no Orkut [destes que, vez ou outra, se recebe de um amigo mais afastado] perguntando como anda a minha pessoa. Contente com a lembrança, respondi meio que no automático “oi, quanto tempo! Eu vou bem, meio na correria, mas é a vida… e vc???”. Resposta típica a uma pergunta típica. Até aí, tudo normal, tudo bem, não há nenhum problema em se querer saber notícias dos amigos… Mas sabe; não tá tudo bem, não! Eu poderia passar horas e horas falando para este meu amigo, do qual gosto muito, o que aconteceu nos últimos 6 meses que não nos vimos mas, em vez disso,  resumi toda minha trajetória cotidiana a um simples vou bem, obrigado”.

O problema [e a solução] do Orkut é que, por meio dele, mantemos sempre aquele contato com os amigos distantes. Por meio das fotos e atualizações você, de certo modo, acaba participando da vida deles: se casaram, se tiveram filhos,se formaram-se, se viajaram, se estão tristes ou se estão felizes. A praticidade e precisão da informação é tão satisfatória que criamos a falsa sensação de que nada mudou desde a ultima vez que vocês se viram há 3, 6, 10 anos atrás. Quando restar alguma dúvida ou bater a saudade, podemos recorrer ao velho e prático recado online e saber se está tudo bem?” com aquele querido amigo. E você faz isso em 2 minutinhos, não gasta tempo, nem telefone, nem transporte. O outro se sente feliz com a lembrança e grato pela manutenção da amizade.

No jogo The Sims 3 tem um recurso que talvez se assemelhe às vantagens do Orkut. Há uma espécie de bônus chamado  “felicidade duradoura”  que você acumula e troca por  algumas facilidades cotidianas; dentre elas, há uma chamada “amigo eterno” capaz de manter uma amizade à distância sem precisar manter o contato com o outro [além do amigo eterno, podemos comprar outras coisas super úteis como, por exemplo, nunca precisar ir ao banheiro, tomar banho ou quase nunca sentir fome].  Na especificação do “produto” fala: “você não vai precisar manter o contato com seu amigo, pois ele sabe que você continua sendo o mesmo”. E sabe? É isso que o Orkut é nas nossas vidas: um bônus de “facilidade cotidiana”. Ele permite-nos ocupar das coisas realmente importantes da vida e, ao mesmo tempo, manter aquela amizade inabalada. O grande problema com isso é que o Orkut não é um espelho das nossas vidas. Nós não somos aquela definição do perfil que diz “quem eu sou” e as nossas conquistas, feitas, realizações e fotos não representam nada mais que pequenos flashs da nossa vida real. Será que é pedir demais se eu quero amigos que saibam quando tá tudo [realmente] bem! ?

No automático e com a euforia da lembrança, escrevi o recado oi, quanto tempo! Eu vou bem, meio na correria, mas é a vida… e vc???. Escrevi o recado, mas não enviei porque tudo aquilo me soou meio falso… E, apenas quando tentei escrever algo mais consistente e real, que me dei conta da dificuldade de fugir do óbvio. Talvez seja este o problema… O problema destes recados formais [e até ritualísticos] é que este tipo de [falso] contato tanto mantém o vínculo com o correspondente, quanto nos afasta deles. Se perguntamos a alguém como ela vai e, na resposta, não contém nenhuma novidade, nunca iremos despertar para a vontade de vê-las pessoalmente. Por outro lado, seu amigo dificilmente vai escrever uma carta sobre sua vida e seus últimos acontecimentos. No ultimo caso, se nada estiver tudo tão bem assim, o máximo que ele pode responder é precisamos nos ver”, mas você provavelmente vai interpretar tal recado como mais uma resposta automática e vai responder É vamos marcar um dia aí!”

Mesmo tendo muito amor e carinho para com o respectivo correspondente de Orkut, quando perguntamos a alguém como você está?” fazemos por MERA FORMALIDADE e sempre esperamos ouvir algo do tipo: Eu vou bem, meio na correria, mas é a vida… e vc???” Ora, que sentido há nestas perguntas e respostas vazias de [real] significado? O recado que você levou 2 minutos entre ligar o computador, abrir o Orkut e entrar na página do seu amigo vale como uma espécie de bônus “amigo eterno”? “Depois deste recado posso passar mais 6 meses sem ver meu amigo, pois o mesmo não tem nenhuma novidade, mas nossa amizade é tão especial que supera a enorme distância que há entre minha casa e a dele” [subconscientemente podemos ser induzidos a acreditar].  E assim, de bônus em bônus, poderemos todos cultivar amizades eternas por toda a nossa vida mas, quando você morrer, eles serão informados pelo Orkut e será tarde demais para o precisamos nos ver.

Na verdade, não culpo o Orkut! Também não culpo a mim nem aos meus amigos se esta é a forma moderna de cultivarmos as amizades. Talvez tenhamos de nos adaptar a isso…  Mas, quer saber? E o abraço? Não é importante? E olhar nos olhos? E sair juntos, assistir um filme, beber juntos, conversar bobagens, passar o tempo ou se empolgar com as mais bobas novidades não é importante?  Não sei o que você acha, mas a gente podia sentar e conversar isso pessoalmente, não?

Seria um domingo qualquer…

Dia internacional da preguiça, parece que a melhor coisa a se fazer num domingo de chuva ou sol é mesmo ficar em casa de pernas para o ar. Eu, entretanto, longe de fazer jus ao dia, estava estudando materialismo filosófico em Epícuro e sua influência na dialética marxiana. Mas, meus senhores, eis que surge a “TV” este ente diabólico que não serve para mais nada além de nos fazer protelar as coisas verdadeiramente úteis da vida que deveríamos estar fazendo.

Camila, venha ver correndo!” [meu pai] “Ah não, tou estudando”! [mas a curiosidade…]

Chegando à TV, Gugu exibia o curioso caso de Jocélia: uma criança com uma doença genética raríssima chamada “progéria”, capaz de acelerar o processo de envelhecimento do corpo. A garotinha, que mentalmente tem todas as características de uma criança de sua idade (9 anos),  fisicamente detém todas as características e doenças típicas de uma pessoa de 70 anos.  A doença não tem cura e a estimativa de vida de alguém com progéria não passe dos 16 anos. Se o acaso do seu nascimento já é motivo mais que suficiente para causar ao telespectador enorme dor, a extrema miséria da sua grande família [como a carência de coisas mais que básicas como fogão] é algo que agrava [E MUITO!] esta sensação.

Ainda que o caso da pequena Jocélia tenha me deixado muito mal, a matéria seguinte foi realmente um verdadeiro choque! [Eu não sei por que escolhem os domingos para fazer este tipo de coisa… Domingo já é, por natureza, um dia depressivo mas, se alguém quiser se matar de desgosto do mundo, sugiro que ligue a TV no próximo domingo…]  Um programa do qual não me recordo agora [desses, tipo “globo repórter”], exibiu uma matéria sobre o efeito do crack nos bebês de mulheres viciadas. Simplesmente, além de todas as sequelas irreversíveis da droga sobre os bebês [de deficiências físicas a retardamentos mentais], estes anjinhos já nascem viciados na droga. Não… Você não leu errado… Bebês viciados na substância mais destrutiva que o homem já criou! A criança tem crise de abstinência [é a coisa mais bizarra que eu já vi em minha vida]. Somada a infeliz realidade, tem-se a triste estatística que revela que mais de 80% dos bebês de mães viciadas são abandonados no dia do nascimento com abstinentes e sequelas irreversíveis e de que grande parte destes bebês são soro positivo.

Além do fato de ambos terem sidos exibidos num dia de domingo,  talvez estes dois casos não tenham muitas coisas em comum… Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: estamos  aqui de falando “problemas individuais” [da criança que nasce com uma deformação genética incomum; ou dos bebês filhos de mães viciadas que já nascem condenados à infelicidade] ou de “problemas sociais” [a ausência de condições minimamente dignas para famílias enormes que sobrevivem com ¼ de salário mínimo por mês; ou da ausência do Estado em prover programas redução de danos sobre os efeitos das drogas, campanhas informativas, ou  a polêmica liberalização do aborto]?

Nossa moral [cristã] coletiva nos leva a acreditar que o direito à vida supera tudo. Mas isso para mim é o típico “egoísmo moral”; porque enquanto as Jocélias da vida estão, nos seus dias de domingo, passando muito mais necessidade que a própria fome, eu, Tássia Camila, garotinha de classe média, estou escolhendo entre ler Epicuro e materialismo ou ver TV. É reconfortante termos a bíblia ao nosso favor, para falar que, como Lázaro, aquele que sofre na terra será recompensado no céu; ou, ainda, usar o espiritismo para dizer que aquele bebezinho recém-nascido tem um carma a cumprir e está pagando pelo mal que fez em outras vidas. É… Moralmente é reconfortante! Isso nos faz conseguir ver algo do tipo e voltar aos livros depois, [ou à novela…]

Como? Eu pergunto: como ler Epícuro, que fala do bem estar aqui na terra e não lá no céu, e aceitar que, para além do meu bem-estar não é problema meu? Não, amigos, não são “problemas individuais” se o crack está devastando o mundo… Não é porque estas pessoas são fracas e não é problema (só) da mãe se seu bebê nasceu com sequelas e foi abandonado à própria sorte. [na verdade, nem quero entrar no mérito da questão se a mãe é ou não culpada  pois, para mim, isto é irrelevante…], o que eu quero falar, é que, se estes casos são recorrentes, não podemos vê-los como “problemas individuais”. Será que cabe manter nossa moral cristã do “direito à vida acima de qualquer coisa” inabalada diante de coisas do tipo?

Eu sei que isto é polêmico e talvez eu seja acusada de estar sendo superficial [talvez eu esteja, mesmo, sendo superficial], mas, para mim, o Estado que proíbe esta mãe viciada e soro positivo de cometer um aborto de modo seguro, está sendo criminoso. Será que podemos dizer que esta pequena criança tem direito à vida se ela não é, de fato, uma vida digna? Eu me questionei e continuo me questionando isso… E, talvez, desta vez, o prisma moral não seja nosso melhor aliado. Talvez precisemos compreender que apenas “não aceitar isto” é muito pouco. Talvez tenhamos mesmo que entender, por mais contraditório que possa parecer, que ser menos egoísta, neste caso, é pensar em políticas públicas eficientes e não em soluções que nos parecem, a nós e a nossos padrões de boa vida, satisfatórias em nome do “direito à vida”.

Isto estragou meu feriadão, mas… quer saber? O que é um feriadão perto de uma vida que já nasce estragada? Talvez por isso que estas coisas acontecem aos domingos: para que saibamos que não podemos nos dar ao luxo de um típico domingo de pernas para o ar sem, no mínimo, nos chocarmos com certos “problemas individuais”.