Hollywood contra-ataca

O cinema cult se propõe a ser uma alternativa a Hollywood, mas será que não o complementa?

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Nesta segunda-feira foi dado início ao tão esperado V Seminário Internacional de Cinema e Áudio visual. Como estamos no ano da França no Brasil, a temática não poderia ser ninguém menos que o maior nome do cinema francês: Jean L. Godard um dos grandes precursores da cinefilia (nouvelle vague) e revolucionário do cinema autoral. A mim, participar deste evento é um desafio posto que dos poucos filmes do Godard que vi, nenhum me agradara lá muito… Se houve um pouco de radicalismo na minha repulsa inicial, através desse contato mais intimo que o seminário está proporcionando, percebo que há muita coisa a ser explorada na loucura dos seus filmes.

Fato é que, quando me apresentaram-no como “o cara”, me policiei para gostar apenas se considerasse bom e não por sua qualidade a priori. Resultado: Não gostei (o que é, na verdade, um caminho natural já que seus filmes são enfadonhos e pouco surpreendentes). Talvez eu tenha esperado demais, mas o fato é que até hoje não consegui me convencer das razões para tanta fama. Quem sabe até sábado [o ultimo dia do evento] eu não mude de idéia? Ao verdadeiro cult, é impagável admitir que alguém não consiga gostar dele, ou… Talvez, ao contrário, seja interessante que não se goste de Godard. Gostar significa fazer parte de um grupo selecto (cult) e de gosto apurado. Assim, quanto menos pessoas gostam, mais cult ele parece. À medida que o que era cult se populariza, é descartado e substituído por uma novidade mais… digamos… “nova”. O que não se percebe é que este caráter de descartabilidade do cult é tão passivo ao mercado quanto a cultura de massa. No final das contas o movimento [sempre] vanguardista do cult é apenas uma tendência complementar a esta cultura de massa à qual contesta.

Do pouco que conheço deste diretor, sei que Godard esteve na vanguarda de um militantismo cultural contra a produção do cinema em escala industrial, mas caiu algumas vezes em contradição com sua própria militância quando passou a adquirir relativa popularidade e se viu obrigado a cumprir prazos e produzir filmes em série chegando ao marco de 6 filmes num só ano.  Histoire(s) du Cinemá (considerada por muitos como a grande obra do século XX), o filme escolhido para a abertura do evento, representa, em linhas gerais, esta crítica à industrialização do cinema voltada para o lucro que tem sua maior expressão com Hollywood. Em meio a um bombardeio de imagens de filmes antigos remixadas e por demais confusas, Godard transmite suas angustias em relação à indústria do entretenimento, do mito, do glamour e do sonho que desvirtuam o indivíduo da realidade. Como não poderia ser diferente, concordo, em parte, com esta crítica, mas algumas coisas devem ser levadas em conta.

O cinema não nasceu com Hollywood, nem o “cinema mito”. No entanto, é inegável que a paixão pelo cinema nasceu sim com Hollywood e suas mega-produções adaptadas a todo o tipo de público e gosto. Hollywood despertou e difundiu o cinema e suas estruturas grandiosas permitiram-no ir das grandes capitais aos pequenos vilarejos, das salas de cinema à internet, da internet aos ambulantes. A indústria do cinema foi responsável até pela massificação de ingressos (apesar de ainda pouco acessíveis), de salas de cinema, de aparelhos de DVD. E não é exagero dizer que o próprio cinema alternativo e sua boa adesão só existem graças a Hollywood, na medida em que surge para contestar a produção industrializada em detrimento da autoral. Os grandes festivais lotados de gente só existem porque antes de se conhecer o cinema cult, aprendemos a amar o cinema de uma forma mais genérica e para tal, tivemos acesso a ele graças a sua massificação.

Sem Hollywood (ou uma estrutura semelhante) não seria possível a expansão desta paixão mundial e pouco me admiraria se o cinema permanecesse francês ou, no máximo, europeu. O cinema agora é globalizado e isto não significa que não haja uma hegemonia hollywoodiana. Ela é inegável e o intercâmbio do cinema fora desta esfera é, sem dúvidas, escasso. Assim, concordo com a crítica a esta estrutura que deve sim ser superada, mas sem esquecer sua contribuição ou tentar destruí-la. Quebrar o monopólio, sim; mudar as regras e inovar no cinema, sim (e nisto Godard é pioneiro). Entretanto, ao tentar readaptar os interesses individuais para um cinema menos “show” e mais “político” em que o peso maior deve ser dado à realidade e menos ao mito e ao sonho, Godard está lutando contra o inimigo errado por uma razão muito simples: as pessoas gostam de Hollywood porque atende a todo tipo de público. Não é o público que se adapta a Hollywood, é Hollywood que se adapta ao público.  Ao produzir um cinema experimental, Godard contribui imensamente à história do cinema, mas não pode ambicionar uma mudança de cultura que acredita ter nascido com Hollywood, pois ela  não nasceu lá.

A consequência deste movimento alternativo a Hollywood foi uma clara distinção entre “cinema show” e “cinema cult”.   Mas no fundo, a verdade é que foi criado mais um gênero a preencher as prateleiras das locadoras. Longe de competir com Hollywood, o cinema cult complementa-o e, aos poucos também é incorporado pela grande indústria.  É inútil, Godard! É inútil lutar contra o “cinema show” pois a vida é real demais e precisamos às vezes do espetáculo!

Se algum dia o cinema perder o sonho e o glamour, podem ter certeza que perderá também uma admiradora a preencher as cadeiras da sala escura sonhando e engordando de tanto comer pipoca…

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