Onde vivem os monstros?

Há poucas coisas de que recordo me arrepender de não ter feito. Já, ao contrário [de ter feito], o leque é bem mais ampliado… Talvez por um motivo muito simples: sempre parto do princípio de que é melhor se arrepender depois do que sequer ter a oportunidade de tentar corrigir os erros… Uma dessas poucas coisas de que me arrependo é não ter assistido “Onde vivem os monstros” no cinema. Primeiro, porque o cinema é, em essência, um dos poucos lugares autorizados à fuga. Segundo, porque, diferentemente de assistir a um filme em casa, é maravilhosa a sensação, ao sair da sala de cinema, de ter acertado na escolha do filme. De todo modo, o fato de não ter assistido ao filme no cinema talvez nem se enquadre propriamente na categoria de coisas de que me arrependo de não ter feito já que, no final das contas, acabei assistindo-o.

Quando me refiro ao cinema como espaço, em essência, dotado de todos os mecanismos propícios à fuga, não acho que esteja exagerando ou generalizando… E, obviamente, não me refiro aqui apenas a ficções hollywoodianas, filmes de super-heróis, comédias românticas, surrealismos, animações, musicais, cinema experimental, realismos fantásticos, comédias Woody Allen ou dramas Almodóvar. Refiro-me também às histórias mais “reais”, aos documentários, às narrativas históricas ou a qualquer tipo de categoria de cinema. Não pretendo ser mal interpretada, mas, por mais real que nos apresente qualquer história, até a maneira escolhida de se retratar as narrativas, a performance, a estética, a fotografia, os padrões técnicos e todo o resto objetivam, não apenas, mas em ultima instância, o lúdico. E, neste detalhe é que se encontra a grande surpresa de “Onde vivem os monstros” pois, por ser uma história lúdica em essência [uma criança solitária que briga com a família, foge de casa e se torna rei num mundo de monstros de pelúcia], nos causa, a princípio, a falsa ideia muito mais de fuga do real do que de aproximação. Entretanto, eis nosso “tapa de luva”: em meu arquivo de memórias, que teimo em recorrer, não me recordo de nenhum filme que se aproxime de forma tão majestosa, da realidade. Aqui está a genialidade do filme: ele joga com a metáfora da fuga não  como distanciamento do real, mas como aproximação.

Fuga… como uma palavra ilude… até ver Onde vivem os monstros, tinha uma concepção distinta do significado da palavra; mesmo porque não há nada mais comum no mundo adulto que a fuga: se na infância temos a capacidade de cometê-la por meio de fantasias fantásticas, no mudo adulto a fazemos, muitas vezes, de modo bem mais nocivo: através de excessos, vícios, fundamentalismos, ilusões… Fato é que dificilmente conseguimos nos bastar em nós mesmos [talvez, por não sabermos exatamente até que ponto somos “auto-suficientes” e, em que ponto, necessitamos fugir]. Talvez ninguém se baste em si mesmo, ou… talvez a noção do que é realidade ou fuga seja inconcebível no trato das relações cotidianas. Aliás, de certo modo, a fuga também permite: uma vez que apenas afastando-nos de nós interagimos e aceitamos o outro. Mas, haveria um limiar entre a fuga e o real? Ou… em que medida a fuga afasta-se ou faz parte do real? Yo no se…

Em Onde vivem os monstros a fuga se apresenta de distintos modos; primeiramente, temos a fuga pelo lúdico: assistir a um filme com tal sinopse já, de cara, nos induz a imaginar um distanciamento do real. Depois, o filme é, em si, uma história de fugas. As fugas do menino da realidade do seu cotidiano; a fuga de casa a um mundo em que poderia recontar sua própria história como gostaria que fosse [um mundo em que ele não seria apenas um menino comum, mas um poderoso rei capaz de trazer felicidade eterna]; as fugas individuais de cada personagem que criam suas narrativas do modo que melhor lhes convém: Carol, o monstro, foge por meio da agressividade [o que o aproxima muito do próprio Max]; KW pelo abandono; outra pela queixa; outro pelo silêncio… São vários os motivos, são várias as formas e a todo momento, fugas reais e imaginária mesclam-se bem como a ingenuidade infantil da fala mescla-se com a percepção mais adulta do olhar… Max* é uma criança que, aos 9, por meio da mais fantasiosa das estórias, vivencia o mundo real e suas limitações, medos e frustrações nada infantis… Ele não transforma o mundo à sua volta, não tem nenhuma capacidade especial de tornar ninguém mais feliz ou resolver os problemas tão mais complexos e exteriores aos seus. Sua passagem, entretanto, pelo mundo dos monstros, não foi vã… O que a marcou, não foram suas “capacidades” especiais, mas sim, seu excesso de humanidade [no sentido mais dúbio e completo que isto implica].

Cabe perguntar com tudo isso: onde vivem os monstros? E a resposta é meio óbvia: dentro de cada um de nós. Talvez então, por este motivo, a fuga não deva ser externa… deveríamos tentar, ao menos às vezes, fugir para dentro de nós mesmos quando for impossível impedir que a realidade nos machuque com todo seu realismo.

So… Viva às fugas e aos retornos!

*Obs: Como não poderia deixar de observar, o brilhante ator que interpreta Max chama-se Max Records e, segundo o próprio Spike Jonze (diretor), é um Sean Penn mirim.

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Quentin Tarantino e a natureza humana

Impossível não comentar… Na verdade, o “post da semana” já estava escrito, mas não dá para não falar de “Bastardos Inglórios” o mais novíssimo filme [clássico] de Tarantino. Digo “clássico” porque certamente ele será muito mais lembrado que “Pulp Fiction”.  Suposições à parte…  Há muito, mas muuuuuuuuuito tempo mesmo que eu não saía de uma sessão de cinema com a sensação de “completude” e “satisfação plena”.  A obra é simplesmente genial!!!!!

inglouriousbasterds

A nível de esclarecimento, minha paixão por cinema é a mais leiga possível, então, qualquer crítica partida deste blog é só um olhar, digamos… [bruto]. Isto não é necessariamente negativo, uma vez que possa vir a ser mais próximo do “cinespectador”. Li algumas críticas ao filme e fiquei impressionada com os olhares mais técnicos sobre direção, iluminação, estilo de filmagem e todos esses blá blá blás que o consagram como “O filme”. Infelizmente não tenho condições técnicas de fazer estas observações, mas tenho certeza que qualquer leigo como eu que assista ao filme sairá da sala de cinema com a sensação de que cada cena foi filmada para torná-lo inesquecível. Considero esta a principal característica para transformar um filme num clássico: poderíamos separar cada cena individualmente e descontextualiza-las que elas seriam, ainda assim, brilhantes.

Direção, roteiro, atuação, cenas, diálogos, efeitos, trilha sonora… [esqueci alguma coisa?] Tarantino pensou em tudo sem desvincular-se de seus traços marcantes. A principio achei que a abordagem era muito caricatural, mas se tratando de Tarantino, é o que se pode esperar; portanto, não se trata de um defeito, mas sim uma opção. Violento, divertido, vingativo e inteligente, sem o politicamente correto, sem mocinhos, sem heróis.  No sentido mais hobbesiano do termo, Tarantino transforma os piores defeitos humanos em virtudes apreciáveis e revela o que há de mais humano nos momentos em que honra, moral e ética são facilmente descartadas por uma coisa muito mais importante: sobrevivência (ainda que seja a sobrevivência do prestígio, dos privilégios, dos desejos). Apesar disso, ser humano não nos torna vergonhoso em Tarantino, pois ele naturaliza o mais bárbaro e trágico de nós, mas não o faz sob um aspecto negativo e sim num aspecto cômico e sarcástico. O humano em Tarantino é bruto e o sentimento é secundário; ele preza muito mais o jogo, a sagacidade. As fraquezas em Tarantino são fortalezas e as virtudes são totalmente descartáveis. Esta inversão de valores é a total fuga do heroísmo hollywoodiano e do romantismo; talvez seja a total fuga do ideal de humanidade, mas será a total fuga do que é, de fato, a natureza humana? Talvez não, uma vez que a mais bárbara e caricata das ficções não nos incomoda, ao contrário, nos satisfaz… Em que outras condições eu veria uma cabeça sendo esmagada por um taco de basebol e acharia graça?

Talvez nossa mente tenha um bom dispositivo para distinguir perfeitamente a realidade da ficção, mas ainda assim as cenas expostas são extremismos de exemplos retirados do nosso cotidiano. Deste modo, de maneira brilhante, Tarantino brinca com o cinespectador, pois ainda que diante da mais completa ficção, expõe-nos à improvável identificação com o que há de mais grotesco. Grande parte das críticas destina-se a esse fascínio do diretor em desmistificar a natureza humana, já que temos dificuldade em aceitar as duas temáticas mais marcantes de sua obra (violência e vingança) como partes essenciais desta natureza. Com um roteiro que levou quase 10 anos para ficar pronto e ser desenvolvido, “Bastados Inglórios”, ao “recontar” a história do nazismo de modo bem peculiar – revelando os judeus não como vítimas de crueldade e dignos de pena, mas também algozes, vingativos e sedentos por sangue e justiça – nos causa certa estranheza. Confesso que é a primeira vez que vejo um filme sobre II Guerra e consigo visualizar judeus e nazistas como indivíduos próximos em algum aspecto, ainda que este aspecto seja o lado mais negativo e obscuro do homem… Isto é que torna as personagens de Tarantino tão peculiares.  Elas, acima de tudo, acima das crenças e interesses têm uma natureza em comum e esta não é boazinha… Assim, cada uma delas mereceria um filme à parte. [ou, pelo menos, mereceria um post à parte]. Desta vez, entretanto, nosso querido diretor exagerou tanto na qualidade de suas personagens, quanto no roll de estrelas num só filme; todos travestidos em personagens muito marcantes, maliciosos e com uma dose de crueldade.

Ainda que o faça por meio de ficção, ao revelar o lado mais obscuro das capacidades humanas em detrimento de sentimentos mais “sãos”, Tarantino é taxado pelos críticos como superficial e infantil. Para os que condenam suas obras em nome de algo que não sei o que é, a resposta de Tarantino é grossa e direta: suas obras “não são para todos, e quem não quiser ver que não vá”.  Eu, entretanto, acho que são sim para todos e quem não for ver, certamente pmv5bmti1mjiwmdeynv5bml5banbnxkftztcwodi0otk2mg-_v1-_sx600_sy400_erderá a grande chance de assistir ao filme mais completo do ano.  Se nada disso é suficiente para te fazer levantar da cadeira e ir ao cinema mais próximo, a atuação de Brad Pitt e, sobretudo, da grande revelação do ano que roubou a cena: Christoph Waltz [com esta atuação, o austríaco levou o prêmio de melhor ator no festival de Cannes e concorrerá ao Oscar 2010 – que certamente levará!] interpretando Hans Landa, um nazista muito malvado e muito hilário,  são motivos mais que suficientes…