Seria um domingo qualquer…

Dia internacional da preguiça, parece que a melhor coisa a se fazer num domingo de chuva ou sol é mesmo ficar em casa de pernas para o ar. Eu, entretanto, longe de fazer jus ao dia, estava estudando materialismo filosófico em Epícuro e sua influência na dialética marxiana. Mas, meus senhores, eis que surge a “TV” este ente diabólico que não serve para mais nada além de nos fazer protelar as coisas verdadeiramente úteis da vida que deveríamos estar fazendo.

Camila, venha ver correndo!” [meu pai] “Ah não, tou estudando”! [mas a curiosidade…]

Chegando à TV, Gugu exibia o curioso caso de Jocélia: uma criança com uma doença genética raríssima chamada “progéria”, capaz de acelerar o processo de envelhecimento do corpo. A garotinha, que mentalmente tem todas as características de uma criança de sua idade (9 anos),  fisicamente detém todas as características e doenças típicas de uma pessoa de 70 anos.  A doença não tem cura e a estimativa de vida de alguém com progéria não passe dos 16 anos. Se o acaso do seu nascimento já é motivo mais que suficiente para causar ao telespectador enorme dor, a extrema miséria da sua grande família [como a carência de coisas mais que básicas como fogão] é algo que agrava [E MUITO!] esta sensação.

Ainda que o caso da pequena Jocélia tenha me deixado muito mal, a matéria seguinte foi realmente um verdadeiro choque! [Eu não sei por que escolhem os domingos para fazer este tipo de coisa… Domingo já é, por natureza, um dia depressivo mas, se alguém quiser se matar de desgosto do mundo, sugiro que ligue a TV no próximo domingo…]  Um programa do qual não me recordo agora [desses, tipo “globo repórter”], exibiu uma matéria sobre o efeito do crack nos bebês de mulheres viciadas. Simplesmente, além de todas as sequelas irreversíveis da droga sobre os bebês [de deficiências físicas a retardamentos mentais], estes anjinhos já nascem viciados na droga. Não… Você não leu errado… Bebês viciados na substância mais destrutiva que o homem já criou! A criança tem crise de abstinência [é a coisa mais bizarra que eu já vi em minha vida]. Somada a infeliz realidade, tem-se a triste estatística que revela que mais de 80% dos bebês de mães viciadas são abandonados no dia do nascimento com abstinentes e sequelas irreversíveis e de que grande parte destes bebês são soro positivo.

Além do fato de ambos terem sidos exibidos num dia de domingo,  talvez estes dois casos não tenham muitas coisas em comum… Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: estamos  aqui de falando “problemas individuais” [da criança que nasce com uma deformação genética incomum; ou dos bebês filhos de mães viciadas que já nascem condenados à infelicidade] ou de “problemas sociais” [a ausência de condições minimamente dignas para famílias enormes que sobrevivem com ¼ de salário mínimo por mês; ou da ausência do Estado em prover programas redução de danos sobre os efeitos das drogas, campanhas informativas, ou  a polêmica liberalização do aborto]?

Nossa moral [cristã] coletiva nos leva a acreditar que o direito à vida supera tudo. Mas isso para mim é o típico “egoísmo moral”; porque enquanto as Jocélias da vida estão, nos seus dias de domingo, passando muito mais necessidade que a própria fome, eu, Tássia Camila, garotinha de classe média, estou escolhendo entre ler Epicuro e materialismo ou ver TV. É reconfortante termos a bíblia ao nosso favor, para falar que, como Lázaro, aquele que sofre na terra será recompensado no céu; ou, ainda, usar o espiritismo para dizer que aquele bebezinho recém-nascido tem um carma a cumprir e está pagando pelo mal que fez em outras vidas. É… Moralmente é reconfortante! Isso nos faz conseguir ver algo do tipo e voltar aos livros depois, [ou à novela…]

Como? Eu pergunto: como ler Epícuro, que fala do bem estar aqui na terra e não lá no céu, e aceitar que, para além do meu bem-estar não é problema meu? Não, amigos, não são “problemas individuais” se o crack está devastando o mundo… Não é porque estas pessoas são fracas e não é problema (só) da mãe se seu bebê nasceu com sequelas e foi abandonado à própria sorte. [na verdade, nem quero entrar no mérito da questão se a mãe é ou não culpada  pois, para mim, isto é irrelevante…], o que eu quero falar, é que, se estes casos são recorrentes, não podemos vê-los como “problemas individuais”. Será que cabe manter nossa moral cristã do “direito à vida acima de qualquer coisa” inabalada diante de coisas do tipo?

Eu sei que isto é polêmico e talvez eu seja acusada de estar sendo superficial [talvez eu esteja, mesmo, sendo superficial], mas, para mim, o Estado que proíbe esta mãe viciada e soro positivo de cometer um aborto de modo seguro, está sendo criminoso. Será que podemos dizer que esta pequena criança tem direito à vida se ela não é, de fato, uma vida digna? Eu me questionei e continuo me questionando isso… E, talvez, desta vez, o prisma moral não seja nosso melhor aliado. Talvez precisemos compreender que apenas “não aceitar isto” é muito pouco. Talvez tenhamos mesmo que entender, por mais contraditório que possa parecer, que ser menos egoísta, neste caso, é pensar em políticas públicas eficientes e não em soluções que nos parecem, a nós e a nossos padrões de boa vida, satisfatórias em nome do “direito à vida”.

Isto estragou meu feriadão, mas… quer saber? O que é um feriadão perto de uma vida que já nasce estragada? Talvez por isso que estas coisas acontecem aos domingos: para que saibamos que não podemos nos dar ao luxo de um típico domingo de pernas para o ar sem, no mínimo, nos chocarmos com certos “problemas individuais”.

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