Matemática que é bom…

[“Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro, as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos rasos e tom panfletário. Matemática que é bom… Esta é a chamada da reportagem da Veja sobre a decisão do governo brasileiro de incluir sociologia e filosofia como disciplina obrigatória nos currículos de ensino médio das escolas públicas e particulares. Simplesmente não consigo ler algo do tipo e não falar nada a respeito]

Este era o início de um post que escrevi sobre uma reportagem da Veja que me chocou; e julguei, por este motivo, que não poderia passar sem resposta… Gastei muito [nem tanto] do meu precioso tempo [nem tão precioso assim…] para pontuar as frases mais esdrúxulas e rebatê-las uma a uma. Ao concluir o penoso e desagradável ofício, dei-me conta de que não vale, absolutamente, à pena fazer nenhum comentário sobre o que se escreve numa revista que sequer leio… “Quem lê a Veja?” [Perguntou o Mino Carta outro dia no auditório da Faculdade de Direito da UFBA] Eu, Tássia Camila, não! Nunca comprei um “exemplar” Veja e, quando ocorre de, ao acaso, lê-la [geralmente através de emails raivosos], qualquer coisa ali escrita não me forma… Nem a mim, nem ao público que gosta de Veja; pois, certamente, concordam com seu conteúdo a priori e só assinam a revista pelo bel prazer de estarem à par de pensamento condizentes com os seus… Resumindo: eu escreveria contra a reportagem para quem? Para uns poucos amigos que lêem meu blog? [Bom, aos meus colegas é que não preciso mesmo rebater o que a revista fala…] Aos leitores da Veja? [duvido que algum, mesmo por acaso, tenha lido meu blog]. De todo modo, a reportagem não foi de todo inútil, pois me fez refletir sobre os rumos da nossa querida educação.

Esta semana li o fantástico livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley; ficção científica que aborda uma sociedade de indivíduos fabricados e condicionados a um convívio social harmônico cujo consumo é o alicerce primeiro. Bem, depois posso até escrever sobre, mas o livro inteiro é uma grande alegoria do nosso mundo e nos faz refletir muito sobre a importância fundamental que a educação exerce sobre o tipo de sociedade que gostaríamos. Longe de querer analisar padrões educativos e blábláblás [deixemos isso aos profissionais], começo avaliando o tipo de educação que EU tive a vida toda.  Enquanto estudante do Ensino médio, tive, no 1° ano, aula de Filosofia e, no 2° ano, aula de Sociologia. Não tenho certeza agora, mas acredito que este tenha sido meu primeiro e único contato com estas duas disciplinas desde que entrei na escola aos 3 anos de idade. Sim, eu tenho 23 anos e há 20 freqüento uma sala de aula. E, talvez seja essa a questão: eu entrei na escola aos 3 anos de idade; e, se isso soa natural aos ouvidos, deve, de fato, haver algo de errado com essa nossa sociedade. Será que é realmente necessário isto que fazemos com as nossas crianças? [às que podem se dar ao luxo de freqüentarem aulas aos 3 anos de idade e às que, aos 3 anos de idade, por incapacidade de ir à aula, vão acompanhar suas mamães ao trabalho?] Puxa, como isso é irônico… No fundo, estes dois tipos de criança têm algo em comum: estão sendo preparadas, desde os 3 anos de idade, às funções do trabalho;  mesmo que um para ser patrão e o outro, empregado.

Além do estranho [porém já naturalizado] fato de levarmos nossas crianças às salas de aula aos 3, o mais complexo, entretanto, é o padrão da educação que nos forma… Achei irônico e engraçado o que a Veja fez no finalzinho de sua chamada: “matemática que é bom…” porque, na verdade, a gente até costuma ouvir esse tipo de coisa: “estudar que é bom, nada!”, mas com relação à matemática não soa absurdo? Matemática é o tipo de coisa que se estuda do 1° ao ultimo dia de aula de nossas vidas: mais ou menos uns 15 anos de matemática; em contrapartida, temos [ou melhor, TEREMOS, pois antes não era nem obrigatório] 1 ano de sociologia e 1 ano de filosofia, sendo que a carga horária de cada uma destas disciplinas representa 1/4 ou 1/6  da carga-horária de matemática [fazendo uma soma bem superficial, teríamos 4 aulas de 50 min por semana x 4 semanas x 10 meses  x 15 anos = 2400hs de matemática contra 1 aula de 50min 1x por semana x 4 semanas x 10 meses x 1 ano = 33,33hs de filosofia ou sociologia. Isto, em número matemáticos representa, aproximadamente, 72x mais matemática que sociologia ou filosofia. Factualmente, se eu não tivesse estudado matemática, não poderia, sequer, fazer estes cálculos aí acima, embora, confesso, não seria capaz de fazer sem o auxílio da calculadora mesmo tendo estudado 72x mais esta disciplina do que aquela que escolhi para seguir como profissão: a sociologia. [puts, como sou incompetente em matemática! Ou… estou com a sensação que fui sacrificada durante 15 anos de minha vida estudando uma coisa que fatalisticamente não tem nada a ver com minha formação profissional]. Bom, então isso que estamos falando aqui de crianças que desde os 3 anos estão sendo preparadas ao mercado de trabalho é falso? Não!!!! Assim como em “Admirável Mundo Novo” estamos falando em condicionamentos. Independente da SUA profissão, a mensagem é sutil, porém, clara…

Durante todos os 20 anos que frequentei salas de aulas, sempre tive a pueril sensação de que existem conhecimentos que são mais úteis à sociedade que outros e, nesta escala, certamente a minha profissão pode ser enquadrada numa escala inferior, já que nossos salários são potencialmente mais baixos do que os verdadeiros cientistas (aqueles que lidam com cálculos e fenômenos físico-químicos, que constroem aviões, foguetes, que descobrem remédios contra doenças, que clonam indivíduos, etc, etc, etc, etc…). O que é o “Cientista Social”? Nós podemos até concordar com a posição de que nossas crianças necessitam de mais formação tecnicista do que formação humanística, mas se assim acreditamos, só pode ser pelo motivo de acreditarmos que as sociedades caminham na direção correta: pautadas na lógica do desenvolvimento tecnológico e do crescimento econômico. Se esta é a sociedade ideal, então calo-me e aceito o sacrifício que fui condicionada. Entretanto, se acreditamos que, mesmo caminhando linearmente rumo ao crescimento econômico as coisas vão cada vez pior, aí sim, me cabe falar: devemos reavaliar os métodos educativos; devemos reavaliar se “matemática que é bom…” ou qualquer outro modelo de educação que prepare os indivíduos a qualquer tipo de cientificismo social.

Só para não dizer que não falei das flores… Adicionarei aqui apenas uma das muitas falas da revista que me chocaram: “Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica”, conta Sílvio Barini, diretor do São Domingos, colégio particular de São Paulo. Bueno! Será que já criaram algum tipo de profissional “desprovido de visão ideológica”? O inquestionável fato de ensinarmos 72x mais matemática que Sociologia ou filosofia é uma opção ideológica e não um método psicopedagogo apropriado. Imagino o pai feliz com o resultado das provas finais: “meu filho ficou em recuperação em filosofia, mas foi muito bem em química e matemática” Lógico que ele tem que ficar feliz, afinal de contas, filosofia não reprova ninguém, mas matemática que é bom…

Link da reportagem aqui

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