Longe das Nuvens

Eu tinha uns 7, não sei mais se são sonhos ou lembranças: deitada sobre a grama do sítio de meu avô, olhava as nuvens raras sob um céu que parecia desenho animado. Passava horas criando personagens que juntavam-se e desfaziam-se quase que instantaneamente: o cachorrinho virava um leão que engolia o patinho e depois beijava a boca de um sapinho tristonho. Que intimidade tinha aquela garotinha com as nuvens? Porque elas lhe davam autorização para criá-las e descria-las segundo seu gosto e predileção?

Ontem pela manhã mirei o céu e notei que não mais chovia… Ele estava exatamente igualzinho àqueles dias de minha infância: azul-pintura-de-desenho-animado. As nuvens estavam tão belas, raras e prontas à criação como estavam há cerca de quinze anos atrás… Tudo estava tão propício, que, confesso, ousei tentar, depois de anos, criá-las mais uma vez. Não compreendo… Elas simplesmente não se permitiram desenhar… Tentei exaustiva e frustradamente e o máximo que consegui foi fazer um animal de um olho e duas bocas ao qual assemelhei a um gatinho tosco.

As nuvens não são mais as mesmas? Ou…

Hoje, por um motivo especial, recordei das primeiras aulas de Ciência Política com o professor Alvino… Era nosso primeiro contato com a Ciência da Política e nosso professor amado fez questão de arruinar os castelos de cartas de cada um de seus novos alunos; cada um à sua medida, é bem verdade… [eu, certamente, fui fortemente afetada!] Éramos cheios de ideais, de deveres-ser, de a prioris, de princípios políticos morais inabaláveis e ele, de cara, nos apresentou ao Príncipe de Maquiavel [err… não foi fácil…]. Meu mundo, há muito tempo, já não era tão belo como quando eu tinha 7 anos; há muito notara, às vezes da maneira mais dura, que há outras histórias além daquelas desenhadas nas nuvens… Mas, ainda assim, é honesto arrancar-nos de nossos pressupostos se isto não tiver o poder de transformar alguém mais, além de você mesmo?

Já de cara, algumas coisas foram arrancadas brutalmente. As certezas, por exemplo, foram-se para sempre sem retorno… Aos poucos, outras tantas coisas se perderam como num efeito dominó: a ingenuidade foi-se de forma tão abrupta que sequer consigo recordar-me quando a perdi… Ruíram-se também as fórmulas pré-fabricadas de um mundo perfeito [aquelas que a gente constrói com tanta logicidade que só pode se perguntar por que ninguém pensou nisso antes]. Com o passar dos anos, ruíram-se pressupostos, deveres-ser, ideais, ideologias, princípios morais; ruíram-se até os ideais ocidentais de liberdade, igualdade e fraternidade, a crença na efi-ciência, nos utopismos… Ruiu-se tudo, tão facilmente, que sequer consigo enxergar semelhanças entre mim e a garotinha que aos 7, desenhava nuvens… Seu mundo nunca fora lá perfeito, mas ela esforçou-se tanto para construir toda a sua noção de mundo; para educar-se conforme tais princípios…

Construir, desconstruir, destruir, reconstruir…

Muita coisa ruiu, é verdade, outras tantas, entretanto, construíram-se…. Eu me fiz e me desfiz tantas e tantas vezes… tantas idas e vindas: umas idas, sem volta, outras que me levaram apenas ao mesmo ponto de partida. Como poderia ousar pensar que poderia desenhar nas nuvens como antes? Entretanto, a crença no ser humano, a vontade de transformação, a esperança [ainda] não ruíram-se apesar de uma grande batalha interna para mantê-las de pé, quando o ceticismo teima em criar, a cada dia, raízes mais profundas…

Mas, como disse o Philipe Pullma, talvez a questão seja esta: “ninguém tem o direito de viver sem ser chocado”

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